«Deu-se então no recolhimento de S. Lazaro uma amostra do dia de juizo. A regente, com as mais senhoras da governança, ajuntaram-se em consistorio, para deliberarem.
«As meninas já de razão e juizo andavam afflictas: eu, porém, e as outras de minha edade nunca nos divertimos tanto; porque andavamos ás ondas por entre as velhas, fingindo que estavamos assombradas do geral terror.
«Ás onze horas da noite foi chamado meu pae,[[2]] e reprehendeu severamente as auctoridades da casa, porque deixaram aberta a porta do commungatorio.
«As providencias foram dadas com tão desgraçado acerto que, ao outro dia, seriam onze horas...»
Suspendemos a copia, que nos não dá n'este ponto os promenores da fuga, vencidas as principaes difficuldades, que n'este infausto caso, foram as menores.{189}
Caminharam as fugitivas na direcção das Fontainhas. Maria Henriqueta não sabia um passo da cidade, e Rita de Cassia, reclusa desde menina, era egualmente ignorante. Foram á ventura até encontrarem uma rampa de pedregulho que descia da rua do Sol.
No alto da rampa viram dois vultos quietos; tomaram-lhes medo, e sem se consultarem fugiram. Os dois vultos eram os «nocturnos» que faziam a policia, e obedeciam a apertadas ordens, n'aquelles tempos revoltos de jacobinos, e malfeitores, que os pretextavam para rebuçarem sua malvadez.
Os nocturnos correram sobre as duas fugitivas, e travaram d'ellas como quem aferra duas amazonas das que antigamente espostejavam exercitos de barbados persas. Interrogaram-as com a brandura de nocturnos. Maria Henriqueta declarou ser creada de servir, e a respeito do seu destino disse que ia para a Foz, onde tinha seus patrões. Rita, para não inventar outra profissão e destino, disse que era tambem creada de servir, e que ia para a Foz.
Interrogadas ácerca dos nomes dos amos, e outras miudezas, responderam disparates, que infundiram suspeitas, se não de jacobinas, ao menos de pessoas que se serviam da noite para obras pouco louvaveis, como fuga de casa, ladroeira, ou alguma das mil hypotheses, que cabiam na cabeça dos dois nocturnos.
—Vocemecês—disse um d'elles, amoldando o tratamento aos trajos limpos das presas—hão de vir ao almotacé, e lá dirão quem são, e o destino que levam.{190}