—Pois bem, sr. Filippe Osorio, eu vou consultar a mesa, e depois lhe darei a resposta.
—Consulte a sua consciencia, e deixe a mesa para mais importantes consultas. Eu quero já d'aqui ir em direitura ao recolhimento. Uma ordem de v. s.ª basta.
Entrou o doutor João Pedro no seu escriptorio; e, mais levado da consciencia que do medo, dado que um pouco de tudo o impellisse á obra meritoria, escreveu a ordem, auctorisando a regente.
Filippe saiu com mudado semblante de affectuosa gratidão, e entrou no portico do recolhimento. Chamou a regente, passou-lhe a ordem pela roda, e esperou impaciente a resposta.
Mandaram-n'o entrar n'uma grade, onde já estavam D. Maria das Dôres e a filha, esperando-o. A esposa{204} enfiou por entre as rêxas os braços, que difficilmente passavam.
—Que mudada estás!—exclamou Filippe.—Que maceração de rosto, minha pobre Maria! O que tens penado n'estes dois mezes!
Era pungente ver chorar aquelle homem, na contemplação da magreza cadaverica de sua mulher!
Nem um riso de contentamento n'aquelle primeiro encontro!
—Falta-me a filhinha!—dizia Filippe—Onde está o nosso anjo, ó Maria! Porque nos privou o céo da nossa filha, que devia n'este momento sorrir-nos a bonança, e accusar estas lagrimas como ingratidão aos beneficios de Deus?
Retirou Maria das Dôres ao anoitecer, e Filippe passeou até altas horas, defronte, e em roda do carcere da esposa.