A fidalga velha, confiada no valimento que tinha com a marqueza de Angêja, senhora que a movera a favor de Filippe Osorio, mandou a Lisboa o seu fiel mordomo a solicitar uma ordem de levantamento de deposito da filha em contravenção das leis. Foi a ordem arrancada de subito ao ministro competente, por engenho da marqueza. Correu com ella o portador; Maria das Dôres nunca se levantou a tão alto na presumpção de sua valia! Mas Gonçalo Malafaya tinha amigos e cabedaes em Lisboa. Horas depois de passada a ordem, fôra revogada, a requerimento do procurador do auctor; e outro emissario vinha ao Porto embargar o effeito da primeira. Copiemos{205} dos apontamentos o facto, presenceado pela educanda a que os devo:
«Logo ao amanhecer vinha Filippe para a grade, e Maria Henriqueta já lá o estava esperando. Por mais que extendessem os braços, era-lhes impossivel apertarem as mãos. Alli almoçavam juntos, e ficavam até ao meio dia. Elle saía, quando as portas se fechavam, e ella ia para a sua cella chorar. Ás duas horas voltava o infeliz, e jantavam. Havia de grade a grade um carrinho com duas roldanas lateraes em que ella lhe passava os pratos.[[4]]
«Ao anoitecer separavam-se. N'esta mixtura de alegrias e amarguras, viveram algum tempo, até que de Lisboa chegou ordem para ella sair do recolhimento. Já elle a estava esperando com uma sege na portaria; já ella tinha pedido ás mestras para nos darem sueto n'esse dia; despedia-se já de todas. Que formosa ella estava então! Como um instante de felicidade a transfigurara! Vestia de setim branco, e sapato da mesma droga. Nos olhos e no rosto resplandecia-lhe o clarão da alma. Não sei que possa imaginar melhor um anjo! Fomos todos com ella á portaria. Já estava a porta franca, e o marido com os braços abertos para a receber e um sorriso{206} de alegria desvairada nos labios. Eis que todo afadigado entra na portaria um mensageiro do inferno, com uma contra-ordem á regente! O desespero dos dois desgraçados não sei eu palavras que o exprimam! Filippe Osorio rompeu em imprecações. Maria Henriqueta fez-se primeiro escarlate, depois da côr do vestido, marmore na frialdade, e caíu sem sentidos nos braços da regente e da porteira. Choravamos todas; até as mais novas se commoveram áquella scena, cujo alcance mal podiamos compreender. Então é que ella adoeceu perigosamente, e cuidámos que não vencia o ultimo golpe. A mãe era incansavel de amor e de consolações ao lado d'ella. As cartas do marido foram talvez a principal medicina do seu restabelecimento. Passado um mez tornou á grade Maria Henriqueta: parecia desenterrada; e Filippe, que tão galhardo mancebo era, pouco tinha já que o distinguisse de um homem de cincoenta annos.»
Renasceu em toda a força da ira o plano da fuga, maquinada por D. Maria das Dôres. Frequentes vezes se encontrava com Filippe na grade, a fazerem combinações, que concertavam todas n'um arrojo de desespero, cuja responsabilidade a fidalga tomava sobre si.
Vejamo'-lo descripto pela companheira de Maria Henriqueta:
«Um dia de tarde chegou D. Maria das Dôres á grade com o genro, e ahi se demoraram até ás quatro horas. Mandou a fidalga dizer á regente que precisava de ir ao quarto de sua filha. Foi-lhe aberta a porta sem a menor hesitação. Entrou D. Maria das Dôres, e Filippe ficou{207} na portaria, como esperando a sogra. Disse a mãe á filha que precisava de arejar-lhe os vestidos. Começaram a sair taboleiros de riquissimos velludos, setins, e sedas de differentes côres, e debaixo do chale escondeu a fidalga um cofre de joias, em que estavam as da filha, e as suas, que eram muitas e de subido quilate. Afóra isto, passou D. Maria das Dôres para as mãos do genro um outro cofre muito pesado, que continha, segundo disseram, dinheiro em ouro. A regente estava desconfiada, e mais desconfiou, quando a fidalga velha lhe disse: «V. s.ª ha de permittir que minha filha dê um abraço em seu marido.» A regente respondeu: «V. ex.ª não me faça alguma, sr.ª D. Maria das Dôres!...» Tornou a fidalga: «Ha nada mais licito que uma senhora abraçar seu marido?» Disseram-me algumas meninas que a regente cedera ao terror, porque vira nas mãos de Maria Henriqueta, sumidas no chale, luzir o marfim do cabo de um punhal.
«Mandou a regente á porteira que abrisse a porta. Saíu D. Maria das Dôres, e postou-se á porta principal da portaria. Chegou o marido a abraçar a esposa, e tal abraço foi que a levou como arrebatada nos braços, e Eugenia seguiu a ama. Porteira e regente emparveceram a olhar uma para a outra; e a creada, que fôra alumiar, de tal riso se tomou que deixou caír o castiçal.
«Occorreram outras scenas que muito nos alegraram, sobre o geral jubilo de vermos Maria Henriqueta livre de ferros.
«Passados os momentos da estupefacção, quiz a regente{208} ir pessoalmente a casa do provedor contar o succedido.
—Saír eu de oitenta e um annos á rua! exclamava ella.—Que dirá o mundo?—Tinha ella uma creada de dezoito annos, que morria por se ver a passear na rua, e estava contentissima de saír com a ama. Passou acaso um estudante de clerigo, que acudiu ao motim, e mais ainda porque era namoro da porteira, elegante matronaça, que não guardava quanto devia as portas do seu coração. Pensou o estudante que a porteira iria com a regente a casa do provedor, e offereceu-se a acompanha'-las, mas a velhinha, para poupar ás estrellas o escandalo de a verem na atmosphera corrupta do mundo, pediu ao embuçado estudante que fosse elle avisar o provedor, o que elle não fez por commiseração com a fugitiva.»