Encontrou Maria refloridas as flores que plantára, um anno antes. Lá estava a roseira que ella consagrára a sua filha, denominando-a Rosalinda. Ahi orvalharam lagrimas as faces de ambos; mas, seio contra seio, as ancias do coração não podiam ser duradouras.
Queriam-se solitarios os esposos ditosos; porém, seu mesmo infortunio lhes dera uma attrahente celebridade. Concorriam á graciosa vivenda os curiosos de Velha-Castella, e saíam para voltarem amigos dos que outr'ora prenderam corações com os nomes de Luiz e Pedro de Castro. A este proposito, até poemas se escreviam com o chiste das musas castelhanas, e os prelos contaram em commoventes prosas a historia infeliz dos esposos.
Uma noite, caíndo a ponto falar-se na pertinacia boçal do conde de Monção, disse o alcaide o seguinte:
—Traz-me esse nome á memoria um successo, que se deu, depois da vossa ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham chegado a Segovia, e saíam de madrugada a fazer excursões pelos arrabaldes. Mandei-os espionar, e soube que elles estanceavam por estes sitios, indagando dos aldeãos qual terra vós terieis ido habitar. Com esta informação fiz prender os homens. Pedi-lhes os passaportes, e vi que os viandantes eram portuguezes, naturaes de Melgaço, e contractadores de carneiros. Não sei por que instincto, retive-os até me darem abono. Não conheciam ninguem em Segovia; mas deram-se pressa em escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham elles vindo fazer nos arredores d'esta quinta. Responderam{213} que andavam em cata de gado para comprarem. Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que tinham elles com uma familia, que se alojava n'esta quinta. Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus máos intentos. Quinze dias depois, recebi ordem do governo madrilense para dar soltura aos presos. Não tinha outro remedio: soltei-os. Escrevi para Madrid, pedindo que se averiguasse na repartição competente quem afiançára aquelles dois presos. Tive em resposta que o ministro recebera directamente uma carta de seu parente, o conde de Monção. De proposito vos occultei este episodio em minhas cartas, cuidando em não vos aggravar as desgraçadas apprehensões. Agora vos digo que isto me fez apprehender muito a mim. Segundo o que Filippe me contou, o aviltado conde, a meu parecer, aprazou a vingança de cobarde. Aquelles homens eram sicarios enviados por elle. Já passou um anno, e naturalmente o conde está esquecido da affronta e da vingança; mas, ainda assim, recommendo-vos toda a cautela, que o mais temivel dos inimigos é aquelle que nos foge. Não me oppuz; porém, não approvo a vossa vinda para logar tão ermo. Antes queria ver-vos na cidade, onde as emboscadas traiçoeiras são menos possiveis, e a minha vigilancia mais apontada.
Filippe Osorio sorriu á prudencia demasiada do alcaide; e Maria Henriqueta estremeceu, e descorou desde que a historia pendeu ao assustador desfecho. Cuidaram damas e cavalheiros em tranquillisa'-la, e, mais que todos, o marido, inventando argumentos falsos a favor{214} de sua segurança. Pediu-lhe a esposa que abandonassem o local, e seguissem sua jornada até aos confins da Hespanha, ou passassem a França ou Italia. Filippe socegou-a com a cedencia á sua vontade, tirando a partido que descançariam mais algum mez entre a sua segunda familia, e velados pela guarda de tantos amigos.
Desde esta noite, eram de instantes os intervallos serenos de Maria Henriqueta. A cada rumor interno ou exterior se alvoroçava; e se ouvia um tiro remoto, não tendo junto de si o marido, soltava um grito, e corria como desatinada a procura'-lo. Então cresciam de fervor os rogos de se afastarem para mais longe; e o marido, que nunca se deixou vergar ao susto, promettia por complacencia abreviar a partida.
As cartas idas de Portugal davam Gonçalo Malafaya a descair rapidamente na formal demencia. D. Maria dizia á filha que se vira obrigada a sair de casa, e estava vivendo com as suas creadas n'um velho palacio de seus paes, com os alimentos, que lhe arbitraram. A razão do divorcio fôra os accessos de furiosa loucura do marido, que, algumas vezes, investira contra ella, armado de um espadim. Passando a miudezas da demencia, dizia que o primo muitas vezes fugia aterrado de uma visão que elle denominava D. Francisco de Athayde, exclamando: Deixa-me, vingador, deixa-me, que Beatriz já me perdoou! N'este estado, dizia a fidalga, o successo da fuga parecia cousa indifferente ao marido; e a julga'-lo, nas horas lucidas, mostrava elle ouvir com dó a vida trabalhosa da filha, e, sem contrariar, a affirmação{215} da legitimidade do casamento. A todos consentia falarem-lhe em Maria Henriqueta, menos á esposa; e contra ella é que mais o acirrava a loucura, a ponto, como disse, de a querer matar.
Esperavam, pois, os Osorios de Mirandella que o infortunio de seu filho e irmão terminasse de todo com a morte de Gonçalo Malafaya.
Um portuense, amigo de Filippe, e seu protector no julgamento, escreveu-lhe para Hespanha. Uma pagina da carta dizia assim:
—Tive occasião de vêr aqui no Porto o conde de Monção, de volta de Lisboa, onde foi procurar uma herdeira rica, e d'onde voltou com a casa mais deteriorada. Falou-se de ti na presença do conde, e elle fez-se roxo. Contaram-se os teus infortunios, e a tua temeridade em arrancar a esposa do convento, e elle mordeu os beiços até espirrarem sangue gothico e suevo. Um dos presentes cavalheiros, sabedor do teu dialogo com elle, porque eu o contei em pleno auditorio, para lhe cravar a garrocha, falou na tua coragem, e de industria derivou o discurso até contar uma historia acontecida entre ti e um dos próceres de Portugal. A historia era exactissimamente a tua com elle. Não tirei os olhos da lorpa faceira do conde, e vi todos os demonios que elle tinha na alma, se tem alma. No estomago juro eu que elle tinha uma legião de espiritos immundos. Palavra não lhe despegou os dentes. Bebeu o calix até ás fezes, e saíu, quando furtivamente poude escapar-se ao imprudente sorriso e ao dos outros. No dia seguinte foi para Monção,{216} d'onde eu sei que elle mandou aqui pessoa de sua confiança averiguar a tua residencia em Hespanha. Eu julgo o conde incapaz de tirar desforra pessoal; vil ia eu jurar que elle a premedita. E, senão, que lhe importa a elle a tua residencia?! Previne-te: confia menos na tua bravura; e veste as armas da prudencia contra os tiros da cobardia insidiosa. Estás em terra onde o sangue salta em espadanas, e ninguem se espanta d'isso. Os assassinos lavam as mãos, quando as lavam, e vão pedir a absolvição aos seus frades. Cautella, meu Filippe. O meu parecer é que vás para Italia, e esperes lá que saia de casa de teu sogro uma tumba, para tu entrares na tua verdadeira paragem dos trabalhos, e dos receios. Só então cuido eu que não chegará a ti o fulgor da tua funesta estrella.