No concernente ao estado de Gonçalo, as noticias confirmavam a approximação de sua morte. Acamára por ultimo, e nem já forças tinha para lançar-se fóra do leito.
Maria das Dôres, fiada na inercia do marido, e movida pela compaixão, recolheu á casa conjugal conquistando assim a aura publica, e o bem estar da sua consciencia. Gonçalo acolheu-a com indifferença, e chegou a apertar-lhe a mão, graças aos seraficos esforços de dois franciscanos e um carmelita, que lhe assistiam á doença. Alguma vez, a esposa se aventurou a falar em sua filha na presença dos fradinhos e estes santos varões achavam justo que a menina viesse pedir perdão a seu pae da filial desobediencia. O fidalgo trejeitava negativamente, e os homens evangelicos encolhiam os hombros, e diziam: «Fidalgo, nosso Senhor Jesus Christo perdoou a quem o matou.»
Observava-lhes D. Maria das Dôres que seria mais piedoso, e conforme aos preceitos de Jesus, dizer ao enfermo, que sua filha não praticára crime, comparavel ao dos matadores de Christo, nem a alma do enfermo se{219} salvaria, negando-se a perdoar em desconto dos martyrios, que fizera soffrer a sua filha. Os monges receavam estomagar o fidalgo, e privar os seus conventos da esmola promettida pelo doente.
Na correnteza d'estas lastimaveis miserias da humanidade, as estrellas funestas d'esta familia alumiavam com luz sepulchral a vida dos nossos desditosos de Hespanha.
Já nem o alcaide espreitava que homens pernoitavam ou passeavam em Segovia, quando, a convite de Maria Henriqueta, Filippe Osorio foi passar um dia á quinta dos arrabaldes. A cariciosa esposa tinha sede de solidão com seu marido. Era abril, e queria vêr as Rosas-lindas, o florido monumento de sua filhinha. Vinha-lhe do campo o acre das florestas, e a juvenil Maria, que volvera aos desoito annos, renovado e aquecido o sangue ao calor da felicidade, anceou o campo, as flores, a sombra, os regatos, as paginas de sua vida que em tudo aquillo se liam. Passaram um dia de paraiso terreal. Brincaram como creanças, por entre as murtas e os jasmineiros, e as cilindras. O sol transmontava as serras, quando Maria disse:—Agora, vamos, filho! e agradeçamos a Deus este dia, que foi um dos mais completamente felizes da minha vida.
Filippe sentou-a no selim do cavallo, e beijou-a com o fervor d'aquelle beijo, que lhe dera, n'aquella noite da fugida de Arouca.
Caminharam, conversando. O lacaio seguia-os vagaroso, com discreta distancia.{220}
Recordava Maria os cinco annos de Lisboa, a apparição infernal do conde, as saudades angustiosas de Arouca, as delicias loucas dos seus primeiros mezes de casada, as torturas inexprimiveis do recolhimento, a louca alegria da segunda fuga, o interrogatorio e o desespero em casa do almotacé, a terceira fuga, o delirio com que lhe correu aos braços, as venturas que devia a sua mãe, e os terrores que lhe denegriram a felicidade nos ultimos mezes. Filippe ia com ella ao céo n'estas memorias, e de lá se despenhava no abysmo de outras. Assim lhes voára o tempo, até entrarem n'um carvalhal, que fórma um como anteparo da cidade.
—Este sitio—disse Filippe—tem uma belleza terrivel. Eu gostei sempre muito d'elle; mas nunca passei aqui sem pensar na facilidade com que se póde ser assaltado d'entre estas furnas de arvores.
—Vamos depressa, Filippe, dá de esporas ao cavallo—disse ella vibrando a chibata na anca de ambos os cavallos.