—Assustei-te com as minha apprehensões?—accudiu Filippe—Tolinha, vai devagar, que perdemos esta formosa scena... Olha os rouxinoes como cantam lá em baixo nas margens do rio... São acções de graças Deus. Agradecem comnosco ao Senhor a nossa felicidade!...
Proferidas estas palavras, saíram dois tiros de entre uma moita de arvores. Maria Henriqueta soltou um grito estridulo.
Filippe inclinou o peito sobre o pescoço do cavallo{221} que se ergueu de frente, espavorido pelo estrondo.
—Creio que estou morto!.... disse elle. Maria saltou a terra, deu dois passos para o marido, que fincára os braços no pescoço do cavallo. Extendeu-lhe ella os seus, invocando-o com uma voz que era já um como derradeiro grito. Caíu fulminada a tempo que o cadaver de Filippe resvalava aos braços do lacaio.
Oh! não vos dizia eu, leitores?
Com que vontade eu quebraria a penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bem quistos da leitora, que amou ou ama, do pae que perdoou, ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia ou já sentenceiou paixões, que que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria inventar, antes mentir, antes de lançar de mim com asco estes apontamentos.
E os apontamentos dizem com acerba simplicidade:
«Viveram, em Hespanha; mas pouco tempo juntos.
O desgraçado Osorio foi assassinado por um tiro, quando se recolhia de passeio com sua mulher».
Quão pouco sabia dos promenores d'este assassinio a educanda de S. Lazaro! outras informações de mais recordados amigos de Filippe, e papeis que se desfariam nunca lidos na papelleira de um nobre, levaram o meu espirito até á catastrophe sanguinolenta d'esta tragedia.