Ás onze horas da noite d'esse dia, apresentou-se na prisão o carcereiro, dizendo que o juiz de fóra mandava remover da prisão commum o preso matador do conde, e mette'-lo em segredo. Os companheiros lastimaram o destino do infeliz.

Dado este passo, o creado de Filippe Osorio vestiu, na residencia do carcereiro, a roupa que este lhe deu, e passou por deante das sentinellas, que o julgaram amigo ou familiar do carcereiro.

Maria Henriqueta esperava-os no seu quarto da estalagem. Recebeu o creado entre os braços, que se não pejaram de estreitar ao coração o vingador de seu marido. Deu ao homem vendido a quantia estipulada. Deu basto dinheiro ao amigo, e uma carta para o alcaide de Segovia. O servo beijou-lhe as mãos, banhou-lh'as de lagrimas, e partiram.

—Não tenho mais que fazer aqui—disse Maria Henriqueta.{235}

E, n'essa mesma hora, saíram para Lisboa, e seguiram viagem para o Porto.

O sangue da infeliz tinha estuado, arrefecido nas veias. Apagada a flamma da vingança, um leve sopro lhe levaria o espirito vital. No caminho, succumbira muitas vezes ao cançaço, e fizera a jornada de liteira.

Entrou em casa de sua mãe, e disse:

—Agora venho pedir a mortalha.

Rodearam-na as consolações frivolas, e o maravilhoso da vingança que lhe attribuiam os já sabidos na morte tragica do conde.

—O creado fiel—dizia ella á mãe—não me deixou cumprir a promessa que fiz sobre a sepultura de meu marido. VINGAR-TE-HEI, disse eu; mas eram tantos a ama'-lo, que me roubaram a gloria de ver o sangue do algoz! Agora, Deus que me julgue!{236}