—Dê-me o preso, que matou o conde, e eu dou-lhe por elle quinze mil cruzados. V. mercê recebe os quinze mil cruzados, foge para Hespanha com o preso, e vae viver feliz e na abundancia onde quizer viver fóra de Portugal. Repare que não é a irmã do preso que lhe fala, é uma mulher que lhe dá, passados alguns dias, quinze mil cruzados.
O carcereiro mediu-a de alto a baixo, e murmurou:
—Isso é mangação? Eu não sei com quem falo.
—Que lhe importa saber com quem fala? Resolva-se n'este momento. Aceite a independencia onde a quizer gosar. Que responde?
—Nós falaremos, senhora; mas se me prendem...
—Siga o preso, que elle vae recommendado a pessoa de Hespanha, que dará a ambos completa segurança, e passagem para o exercito francez, se a quizerem.
O carcereiro annuiu, sem grandes oscillações de consciencia. Esperava Maria a resposta de sua mãe com{234} anciedade. Ao fim de sete dias chegou o mordomo, a quem D. Maria das Dôres confiára dinheiro excedente ao valor das joias.
O carcereiro foi chamado á sua presença, e viu o dinheiro.
—Traga por aqui o preso esta noite. Venham de roupas mudadas para não serem conhecidos. Aqui recebe vocemecê o dinheiro, e elle uma carta. Depois, sigam o caminho mais seguro que tiverem.
—Eu sei os atalhos aos palmos até á fronteira—disse o carcereiro.