Maria susteve-o, porque o carcereiro estava ainda perto, e, baixando a voz, disse:
—Entrei aqui como tua irmã, fala baixo... De que me pedes perdão?
—Tirei-lhe a vingança que era de v. ex.ª... mas não pude mais com a minha paixão. Eu adivinhava que a fidalga vinha; e a minha vontade era espera'-la e guia'-la na sua vingança; mas n'aquelle momento em que o maldito saía da egreja, não pude ter mão em mim; cheguei-me ao pé d'elle, e disse-lhe: «Sou o lacaio do sr. Filippe Osorio» e matei-o a facadas. Estou contente, palavra de fiel amigo! Agora, que me enforquem quando tiverem occasião, que eu cá fiz trinta annos á justa ha mais de vinte. Não podia empregar melhor a vida!
—Não has-de ser enforcado, João—disse Maria.
Hei-de salvar-te; irás d'aqui para Hespanha.
—Salvar-me?! Deixe-se d'isso, fidalga; não vale a pena andar a minha ama n'esses arranjos, sem geito nem saída. Vá v. ex.ª para sua casa, e deixe-me cá com a minha consciencia, que estamos de boas avenças, eu e mais ella, assim me Deus salve a minha alma.
—Cala-te, e obedece-me, João. Vê em mim teu amo. Vêr-me-has mais vezes.
Maria voltou ao dia seguinte, e ao outro. O creado que a seguira, já tinha voltado ao Porto, com uma carta a D. Maria das Dôres. Resava assim o periodo final:
«Mande-me, pois, quanto possa, quanto v. ex.ª daria{233} para o resgate de sua filha. É a minha vida que salva da forca. As suas joias valiam mil cruzados: dê-m'as, que eu não quero mais nada da herança de meus paes, senão uma mortalha, e um tumulo para os ossos de meu marido e para os meus.»
Á quarta visita que Maria Henriqueta fez ao preso, deteve-se a falar com o carcereiro. Era um homem pobrissimo, bondoso, dado com os presos, que o sustentavam. N'um relance da conversação, Maria assumiu o tom natural de senhora, e disse-lhe: