—E ouviram dizer quem fosse o homem que matou o conde?

—Ninguem lá soube dizer quem era, fidalga!

—Prenderam-no?

—Ora! isso foi como o senhor sol. Lá ficou na cadeia. Eu bem quiz ver-lhe os focinhos; mas era tanto o povo, que ninguem lhe chegava á beira. Uns diziam que era mandado por outro que queria casar com a menina; outros contavam lá a cousa como queriam; o caso é que{231} ao certo ninguem sabe dizer quem é. Ámanhã é que pelas perguntas se ha de saber.

Não se deteve Maria Henriqueta. Chegou a Extremoz, e viu no primeiro palacete as portas cobertas de crepe com franja de prata. Sem perguntar, soube que d'alli havia de sair o cadaver do conde de Monção.

Apeou-se na estalagem, e pediu guia para a cadeia. Como a julgassem curiosa de conhecer o assassino do conde, disseram-lhe que elle estava a perguntas em casa do juiz de fóra. Foi Maria a casa do juiz de fóra, e conseguiu entrar até ao salão de espera. Era prohibido o accesso ao gabinete do ministro, onde estava o interrogado.

Esperou que elle saísse, viu-o, e conheceu o creado de Filippe Osorio, o seu amigo de nove annos. Viu-a tambem elle, e parou, abriu ainda a bocca para exclamar; mas logo viu que a fidalga tinha sobre o nariz o dedo, em gesto de silencio.

Passou o preso, e Maria Henriqueta, escutando os rumores, que vinham do gabinete, ouviu dizer que o assassino do conde confessára quem era, e a causa por que praticára o homicidio, mostrando suprema coragem para morrer, vingado o amo, que ás ordens do conde fôra assassinado.

Decorridos dois dias, Maria Henriqueta vestiu uma velha roupa, alinhavada ao uso do Minho, e pediu ao carcereiro licença para falar com o preso, que era seu irmão. Foi-lhe concedida, como cousa usual. O preso, ao ve'-la, lançou-se-lhe a chorar aos pés, e disse:{232}

—Perdôe-me v. ex.ª...