—Seja piedosa! não me mate! deixe-me, em signal de compaixão das minhas infernaes penas.

Só a violencia podia embargar-lhe a saída. Aconselharam-na á fidalga os familiares e parentes; mas quebrou de animo para tanto.

Maria Henriqueta saíu.

E cinco dias depois anoiteceu-lhe em Lisboa; e no dia seguinte atravessou o Tejo, e foi caminho de Extremoz.

Correm rapidas estas scenas, porque Maria não murmurava mais palavras que as urgentes para o cumprimento de suas ordens ao creado. Os dias eram os mesmos; brida solta em quanto os cavallos podiam; novos cavallos quando caíam de fadiga os outros. Os viandantes que a encontravam entre nuvens de pó, diziam: «Que extravagante mulher! É alguma fidalga, que não sabe como hade consumir o vigor dos annos, espicaçados pela riqueza!»

Outros achavam-lhe um bello rosto alumiado por sinistra auréola, e paravam a comtempla'-la nos curtos intervallos em que pousavam nas estalagens, ou alugavam cavallos nas grandes povoações. Em algumas estalagens, os passageiros curiosos, ao romper do dia, perguntavam ao lacaio: «Que tem sua ama, que soluçou e gemeu no quarto toda a noite?»

A duas leguas áquem de Extremoz, apeou Maria Henriqueta, a esperar que anoitecesse para entrar na cidade.{230}

Ao caír da tarde, entraram na estalagem uns homens vindos da feira de Extremoz, e contaram ao estalajadeiro o seguinte:

«Seriam duas horas da tarde quando saía de se receber n'uma egreja um sr. conde com uma menina, que lá diziam ser a mais rica da provincia. Estava muito povo no adro, e muito fidalgo, que já não cabia na egreja. Saíram os casados já recebidos, e o noivo vinha que parecia um rei, e a noiva era mesmo um palmito, com tantos brilhantes como as estrellas do céo. E vae n'isto, quando o conde ia a dar a mão á noiva para entrar no coche, um homem que eu não cheguei a ver, mas que me disseram que era já avelhado, chega ao pé do conde cara a cara, diz-lhe não sei que, e enterra-lhe tres vezes no peito uma faca!»

Maria Henriqueta expediu um grito que chamou a attenção de todos, para o repartimento do tabique, além do qual estava a saleta, que lhe deram. Movera-se o estalajadeiro a saber o que tinha a fidalga, quando ella abriu a porta, e perguntou: