—Sangue!—exclamou o velho.

—Sangue de meu marido, de meu marido assassinado pelo conde. Para nos encontrarmos todos na eternidade, perdoe-me, meu pae. Este sangue era innocente, e pede perdão para o nobre coração que o tinha, e para mim.

Gonçalo quiz sentar-se no leito: esforço vão! Pediu por acenos, que o sentassem. Obedeceram-lhe. Chamou a filha a si, approximou-a do peito, e balbuciou:

—Perdôa-me tu, perdôa-me tu, desgraçada!...

E continuava a querer aperta'-la entre os braços convulsos, quando a face, pendida para o seio, encontrou a cabeça de Maria, e esteve assim instantes. Eram os ultimos. Os braços, ao descaírem, inteiriçaram-se e os dedos recurvaram-se um pouco.

Maria retirou a cabeça humida do sôro que corria dos cantos dos beiços do defunto. Fitou os olhos na face morta de seu pae, e disse:

—Perdôo-lhe, meu Deus! Perdoae-me vós a mim, quando eu fôr á vossa presença!

No dia seguinte, a sociedade illustre do Porto pejava as salas funeraes do palacio de Gonçalo. Ninguem vira Maria Henriqueta. As damas intimas de D. Maria das Dôres poderam apenas saber que a viuva tinha saído á meia noite acompanhada de um lacaio.

Assim fôra; e quizera ella acompanhar-se do lacaio do marido, o fiel creado de vinte annos; mas ninguem dera novas d'elle, desde que entraram no Porto.{229}

D. Maria das Dôres tentou estorvar-lhe o mysterioso designio; mas a filha respondia-lhe: