Estava ainda no Douro Maria das Dôres, quando recebeu o inesperado golpe em uma carta muito amoravel, que sua filha lhe escreveu do collegio, e outra, não menos humilde, e mais reflectiva do marido. Então comprehendeu ella o silencio de Gonçalo, tendo-lhe ella escripto para o Porto duas cartas, uma queixando-se de passar mal as noites, e desejando que a mãe, a ter de morrer, abreviasse os paroxismos; outra, raivosa, por ter escripto duas, sem receber, sequer, resposta da primeira. Aquelle sequer denota que a snr.ª D. Maria das Dôres queria receber resposta da segunda carta que estava escrevendo. E onde póde chegar o mau genio!

Esteve a senhora algumas horas arquejante de cólera sem saber que deliberação tomar. Rompeu, depois, em queixas contra o pae que, a despeito da vontade d'ella, a casára com o primo. O velho ouviu os clamores, e disse:—«Se tua mãe vivesse, essa santa poderia contar-te o que me soffreu a mim. Deus sabe com que remorsos eu cá fico chorando n'este mundo!... Eu casei{38} por honra da familia, e para me forrar a questões de vinculos e direitos de successão, que meu sogro podia disputar-me vantajosamente. A casa ficou solida, e para ti foi, minha filha. Soffri e fiz soffrer; mas quem é que não soffre n'este valle de lagrimas, Maria?»

Não sei se Christovão Azinheiro tambem sabia a historia do rei que mandou chamar o philosopho; se a sabia, dispensou a filha de ouvi'-la, e esta, sem lhe dar trela a dictames e conselhos, despediu-se, dizendo que a paciencia tinha limites e a desgraça a tinha emancipado. Mal a entendeu o velho; mas sempre lhe disse afinal:—«Lembra-te que és minha filha, e que tens dois santos na familia, o snr. bispo de Leiria, e a snr.ª dona abbadessa de Lorvão.»

Maria das Dôres, sem mesmo se encommendar aos santos familiares, torceu a estrada a meio-caminho, e foi direita a Arouca, em cujo mosteiro ainda tinha vivas suas tias, occupadas em deslindar as bastardias genealogicas das conventuaes, e os ultimos milagres operados por algumas freiras que tinham apparecido inteiras na claustra, depois de vinte annos de sepultura.

Abriram-se as portarias á bem-vinda aia da santa rainha Mafalda, e todas as religiosas a acharam mais bella, mais gorda e mais encantadora.

—Vieste ver-nos, pomba;—disseram as tias, convulsivas de jubilo e de velhice.

—Vim ve'-las, e pedir-lhes a minha antiga cella.

—Como assim? Tu queres tornar para o convento?

—Sim, minhas senhoras; tornar para o convento, e{39} morrer n'elle, se me deixarem. Meu marido fugiu-me para Lisboa, roubando-me a minha filhinha, a luz dos meus olhos, o meu coração, a minha alegria, tudo o que eu tinha n'este mundo. Casaram-me á força, e agora querem á força matar-me. Pois sim, morrerei; mas hade ser aqui, onde vivi os annos felizes da minha infancia, e á sombra de minhas tias, que me não tolheram a felicidade. Não tenho, nem quero ter mais ninguem. Sou rica; mas da minha riqueza tirarei sómente os alimentos necessarios. Sou rica do que é meu; se o não fosse, pediria a minhas tias um quinhão da sua tença.

—Oh! filha! exclamou a mais escorreita das velhas—Isto não sei o que me parece! Em quanto a mim, essa veneta, que te deu, é desesperação de ciume!... Olha lá, porque vens tu vestida de dó? Morreu-nos algum primo? Seria o monsenhor da patriarchal D. Joaquim que deve estar muito velhinho? Seria o sr. bispo da Guarda, que é nosso primo pela linha lateral dos Azeredos Pita-Rellas?