—Foi minha mãe que morreu—atalhou Maria das Dôres limpando uma lagrima espremida pela raiva no afôgo declamatorio.

Ouvida a infausta nova, as senhoras Moscosos Azeredos, que eram tias da mãe de Maria, compuzeram um duo de alaridos roufenhos, que alarmou o mosteiro. Confluiram todas as religiosas á cella, e cada uma garganteou o mais plangente que poude uma escala chromatica de gemidos. As duas freiras anojadas declararam-se em lucto rigoroso, e sentaram-se nas suas cadeiras de{40} solla, a receber os pesames e as visitas nocturnas.

Maria mal podia esconder a sua zanga. O que ella queria era desabafar, gritando e gesticulando; mas o silencio funeral, que pedia o caso, não se compadecia com o seu desafôgo. Já arrependida de entrar no mosteiro, e incapaz de reflectir no disparate da sahida abrupta, a desarvorada senhora, no dia seguinte ao da entrada, mandou metter os machos á liteira e partiu para o Porto, deixando confirmada a fama, que tinha de douda, no conceito de umas senhoras, e a conjectura de que a perda da mãe a enlouquecera, na opinião de outras. Em quanto ás venerandas Moscosos Azeredos, essas, com quanto estivessem pasmadas, não se moveram das suas cadeiras, onde lhes impunha a praxe esperarem a pé quedo que os tres dias do nojo expirassem.

Na correnteza d'estes acontecimentos, estava Gonçalo Malafaya provando-a, sobre todas, mais dorida porção da sua vida. Tentaram-n'o saudades a ir ao mosteiro de Odivellas, onde sete annos antes professára Beatriz, filha do conde de Miranda. Enganára-se com o seu coração o sensivel fidalgo, cuidando que podia ver impunemente a mulher unica do seu amor, a recordação agridoce de sua mocidade. Bem sabia elle que havia de chorar; mas esperava com as lagrimas apagar o incendio, se as cinzas escondessem alguma faúla da antiga chamma.

Foi a Odivellas, e chamou ao locutorio soror Beatriz dos Anjos. Acudiu ao chamamento a esposa do Senhor, a pallida virgem, com as suas vestes magestosas e tristes;{41} mas tristes a olhos mortaes, que mais bellas não as podiam inventar homens para as noivas do céo.

Era ainda formosa, ou mais formosa era então a chorada Beatriz dos salões da côrte, dos esplendorosos saráos, das invejas dos moços, e das mil brilhantes esperanças, apagadas todas n'uma hora. Deus a chamára a si, dotando-a com a perpetuidade da juvenil belleza. Tomou-lhe do coração os dons, que mal soubera merecer-lhe o homem amado; e, em cambio d'elles bafejou-lhe de eterno maio as flores da face e a juventude do espirito.

Maravilhou-se Gonçalo de a ver tão gentil: e ella, mal recobrada da torvação da surpresa, espantou-se da mudança do galhardo moço que ella amára.

Quizera a religiosa fugir; mas o coração ia attraído para a doce voz, que era a mesma em ternura, e para os olhos marejados das antigas lagrimas.

—A que veiu aqui?!—perguntou Beatriz, com os olhos postos sobre o escapulario.

—Vim atormentar-me—respondeu Gonçalo—Vim procurar as torturas, que faltavam ao meu martyrio.