—Francisco de Athayde, justamente—replicou o vingador ás delicadas duvidas do portuense.—Sou o Francisco de Athayde que tinha em 1778 vinte e tres annos.

—Muito folgo de encontrar um amigo da mocidade—redarguiu Gonçalo.

—Amigo, não. Esse titulo affronta-me. Inimigo implacavel, hade dizer.

—Duvidarei te'-lo em tão extranha conta, emquanto{76} v. ex.ª me não disser que fiz eu para merecer-lhe tamanho odio.

—Matou Beatriz dos Anjos.

Gonçalo empallideceu, e como á luz de um sinistro relampago, viu aquelle homem enxugando as lagrimas, ao lado de Beatriz de Noronha, debaixo de uma arvore de Cintra.

—O seu silencio quer dizer que se preza e gloria de ter assassinado a mais formosa e digna creatura da nossa mocidade, sr. Malafaya?

Gonçalo balbuciou:

—Eu era indigno d'aquelle anjo. Deus a desviou de mim, porque a escolhera para sua esposa, e a chamou ao céo, quando já bastava como conforto a desgraçadas, o exemplo que ella dera.

—Palavras, senhor! Não vim a ouvir palavras. Que tem v. ex.ª padecido por expiação d'aquella morte?