—Entenda-o assim, se lhe apraz.

—E sabe que desforra me fica?

—A do insulto publico.

—Estamos entendidos. Ver-nos-emos.

—Quando v. ex.ª queira.

Saíu D. Francisco de Athayde, e afadigou-se pouco em busca de Gonçalo Malafaya. Encontraram-se, e tiraram dos fains em presença de um numeroso publico, que saía da egreja dos Martyres. A pontada de Athayde vinha certeira ao coração de Malafaya, e resvalou ao longo da lamina do seu florete. Repetidos tiros de enfurecido ataque a sua mesma desordem os inutilisou. Athayde foi segurado por pessoas que o julgaram furioso no ataque. Gonçalo Malafaya, conhecido de alguns transeuntes, foi rodeado de povo, que se acotovellava para escutar as razões da extranha briga de dois fidalgos, como em seu exterior se mostravam. O portuense, ás reiteradas perguntas de conhecidos e desconhecidos, respondia com inuteis esforços para desentalar-se da multidão. Prosperou-lhe a ventura passar o corregedor do bairro do Rocio, seu amigo, de quem tomou o braço, e por amor de quem o povoléo lhe deu passagem.

Este successo turvou profundamente a paz que o pae{79} de Maria Henriqueta se estava saboreando entre a indulgente emenda da esposa e as caricias da filha.

Fôra grande na capital a soada do acontecimento, e explicada pelos coevos dos amores que levaram Beatriz á campa, e D. Francisco de Athayde á enfermaria dos loucos.

Este final e logico desastre do amador infeliz succedeu poucos dias depois. Athayde saíu da sua modorra em accessos de furia pedindo uma victima para a sepultura de Beatriz de Noronha.

Racionalmente, sua familia inferiu dos precedentes a demencia do lastimavel cavalheiro. Quizeram medica'-lo em casa; mas a sciencia rehabilitadora das razões degeneradas estava no hospital de S. José, onde foi recolhido D. Francisco, d'onde saíu seis mezes adiante, para o jazigo de seus maiores.