E saíram. Maria Henriqueta, com os olhos turvos de lagrimas, mal via o chão que pisava.

Gonçalo atirou-se sobre um canapé, e exclamou:

—Castigado até ao fim! Nem a submissão d'esta filha que eu amo tanto!... É de mais, ó meu Deus!

Entraram os creados a pedir ordens para a localisação das alfayas vindas da capital. Gonçalo saltou enfurecido do canapé com as mãos enclavinhadas nos cabellos, e exclamou:

—Peguem incendio a esta casa, e morra eu dentro della!

Os servos fizeram pé atraz e encontraram, ao saírem espavoridos, o capellão, que se estava persignando, com os olhos postos no tecto, á mingua de céo.{103}

[II]

Era aquelle o dia em que devia entrar no Porto o conde de Monção. As carruagens da fidalguia, convidada por Malafaya a esperar o seu illustre hospede, estacionaram á porta do palacio, condemnado ás chammas, esperando que o dono descesse. Gonçalo, quando a parentella ia entrando, compoz o semblante, vestiu-se a primor, e saíu a entrar na sua melhor equipagem. Era tarde para sacudir a carga, que tão vaidosa e jubilosamente tomára.

O conde vinha pela estrada de Coimbra, onde passára alguns dias, visitando quintas suas nos arrabaldes d'aquella cidade. A comitiva chegou aos Carvalhos e esperou.

Era o conde de Monção um fidalgo creado em côrtes, e conhecido nas extrangeiras; mas, em todas, o mais graduado titulo de sua recommendação era a tolice, o dom de engranzar parvoiçadas, que relevavam de chiste por serem ditas n'uma algaravia de linguas, só perceptiveis por alguns vocabulos irrisoriamente pronunciados. Fôra menos exacto, ou nimiamente credulo Gonçalo{104} Malafaya, dizendo que o conde de Monção sabia falar francez, por ter estado em França. O conde era refractario aos idiomas, e com o seu, propriamente, andava tão desavindo, que os fidalgos de Lisboa não o entendiam melhor que os de Pariz. A visinhança de Galliza, que defronta com Monção, introduzira na linguagem familiar do conde muitos termos espurios, cuja versão fiel só os aguadeiros de Lisboa podiam faze'-la competentemente. Galhofavam d'elle muito na côrte as damas e os moços intolerantes. A mim me quer parecer que a pecha de agallegados, que os de Lisboa gratuitamente nos põem, data das visitas do conde áquella cultivissima terra, que tem lá tambem os seus dizeres ridiculos, mas no proferi'-los vae tanta graça e tal affectação que não ha ahi cousa que mais diga!