Saía o conde de Coimbra em direitura ao Porto, quando ouviu tropel de cavallos que o seguiam. Olhou, e viu um cavalheiro com insignias militares, acompanhado de seu lacaio. Ao perpassar por elle o açodado cavalleiro, perguntou-lhe o conde:

—Vae para o Porto?

—Sim, senhor.

—Então podemos ir de camaradas.

—Com o maior prazer, se o cavalheiro esporear o seu bello alazão.

—Se não é mais do que isso, ahi vamos—disse o conde, atirando o acicate aos ilhaes do cavallo.

Filippe Osorio riu-se d'aquelle verbo—vamos, se é que Filippe Osorio podia rir.{105}

Praticaram largamente n'aquelle dia de jornada, sobre diversos assumptos. As damas tiveram grande parte, como de direito deviam ter, nas palestras dos cavalleiros. Dizia o conde que as francezas tinham grande pancada na mola, e as inglezas costumavam cheirar os homens de longe, antes de lhes apertarem a mão. O tenente de cavallaria aventou logo que falava com um inepto, e cavou solicitamente na materia em que elle mais necedades dizia. Se alguma vez o conde revelou intervallo lucido de sensatez, foi quando disse que as senhoras do Porto eram muito formosas. Mencionou as que conhecia, e ajuntou que ia hospedar-se em casa de uma, cujo retrato possuia em marfim, e que era a mais linda mulher que seus olhos enxergaram na Europa. Proseguiu no mesmo theor esperando que o seu companheiro lhe perguntasse quem era a mulher mais linda da Europa; mas Filippe tão abstraído ia que nem a curiosidade o espertou.

—O meu nobre amigo, disse o conde arrebentando por dizer o nome da dama, talvez tenha ouvido falar na familia dos Malafayas...

—Tenho...—disse Filippe, empertigando-se na sella, como se uma barra de ferro lhe batesse no peito.