—Isso não é responder. Tu já sabes que Maria não quer o conde.
—Pois se o não quer, tambem eu não. Diz ao conde que trate de sua vida.
—Mas a minha palavra está dada.{126}
—Déste o que não podias. Deixa-me a mim o encargo de responder pela tua palavra. Eu falarei com elle.
—É melhor que fales com tua filha, e a convenças.
—Deus me livre d'isso... Eu é que estou convencida de que minha filha iria ser desgraçadissima com o conde, a mais embirrenta creatura que eu tenho visto! Como descobriste tu aquelle palerma? Tens dedo, realmente! Faz vontade de lhe offerecer a cabeça de um macho para enfeitar a corôa de conde!... Cousa assim!... E, sobre tudo, ruivo, pés grandes, anão dos assobios, e tabaqueiro! Deus me defenda de tal genro!
—Tenho entendido...—disse Gonçalo com resignada amargura—Estragaste-me Maria Henriqueta!
—Estraguei-t'a?... Estragado tens tu o juizo!... Eu logo vi que os frades e as freirinhas te davam cabo da razão! Se fosses rapaz, e visses um homem da laia do conde, escarnecia'-lo; como estás a envelhecer, entendes que está alli um marido pintado para a tua filha!... Deixa a menina, deixa-a viver, não lhe tolhas o seu futuro com os teus calculos de a engrandeceres! Dá-lhe alegria, não lhe dês titulos... N'uma palavra, diz tu, ou deixa-me dizer ao homem que Maria Henriqueta não o ama.
—Diz muito embora; mas fica sabendo que ha de entrar n'um convento tua filha.
—Pois sim; o que tu quizeres, que ella tudo acceita menos semelhante marido. Irá para um convento, e póde ser que eu vá com ella. Vês-te assim livre de ambas: e{127} depois vae para as grades entreter-te com as delambidas santinhas, que nós havemos de louvar a Deus o favor de uma cella onde não chegam figurões da laia do teu conde.