E terminou, por esta vez, o ternissimo colloquio.
Maria Henriqueta faltou ao almoço, e foi desculpada por sua mãe, sendo por falta de saude que faltava. O conde, industriado pelo coração, que é um grande mestre de cerimonias, pediu a Gonçalo Malafaya licença para mandar saber directamente da menina, pela creada grave d'ella. Tomou o comprimento D. Maria das Dôres, e voltou, em nome de sua filha, muito penhorada das attenções do illustre hospede. Tinham que vêr e de que rir estas etiquetas pausadas, pautadas e mesuradas como um ritual de officio de defuntos.
Em quanto D. Maria das Dôres, depois do almoço, ficou á mesa conversando com o conde, Gonçalo aproveitou o azo de entrar ao quarto da filha, que por um cabello não foi surprehendida a escrever a oitava pagina de uma carta a Filippe Osorio. Compuzera-se o pae de boa sombra, e proposito de melhores palavras. Simulou acreditar nas queixas que a privaram de ir á mesa, e d'ahi derivou a mostrar que as inquietações do espirito eram muito nas molestias do corpo. Fez o elogio da paz, e da voluntaria deixação das velleidades do animo as quaes vinham a ser liberalmente compensadas com os doces cuidados domesticos, sob os olhos carinhosos de um marido, que, ao mesmo tempo, abrange a ternura de pae, e a profunda estima de irmão. D'aqui saltou,{128} pouco methodico, para os gabos enthusiastas, que o bondoso conde lhe estivera fazendo da formosura d'ella. Deteve-se n'este assumpto, sem adivinhar a duplicante nausea com que a filha o estava ouvindo. Era logico o repisar de novo na materia odiosa do casamento. Vestiu com quantos enfeites soube de sentenças e moralidades as suas intenções. Realçou os brilhos de uma alta posição na sociedade, e de uma corôa de condessa. Matizou-lhe as delicias da côrte, para onde o conde resolvia mudar sua residencia, e assumir no paço as brilhantes occupações de seu pae e avós, podendo sua esposa considerar-se desde logo primeira dama da rainha, afóra a vantagem e gloria de educar e elevar seus filhos á sombra de reaes telhas.
Ouviu Maria a estirada parlenda em silencio, silencio agro de represadas lagrimas, ancias de lançar-se de joelhos aos pés do pae e abrir-lhe a alma, e deixar lá ver a imagem do homem, que para todo sempre a maniatara ao seu destino.
—Que respondes, Maria Henriqueta? Não conseguiu teu pae mover-te? Resistes aos rogos que te faz o teu bom e sempre extremoso amigo?
Maria respirou em pranto, e exclamou quanto os soluços lhe permittiam:
—Não posso, meu pae, não posso... Deus sabe que eu lhe tenho pedido desde hontem a morte!...
—Basta;—disse severamente o pae. Sabes o teu destino? Sabes que has de entrar no mosteiro de Arouca?{129}
—Entrarei, meu pae.
—E que has de lá estar emquanto eu for vivo?