—Estou prompta, se é sua vontade que eu vá.
—Não é vontade: é violencia que fazes ao meu coração. Pensas que eu poderia ver em redor de minha casa o homem de Mirandella? Cuidas que o rosto de um pae é insensivel ás ignominias do coração de sua filha? Não coras de tal namoro; mas coro eu por ti, coram em ti meus avós, uma série de senhoras soberbas de seu nascimento, que casaram com eguaes por não poderem elevar-se mais alto. Sei que está no Porto esse aventureiro. Toda a minha prudencia será necessaria para o não mandar chibatar pelos meus creados. Não o farei, porque eu arrisco muito no escandalo, arrisco a tua dignidade, que é a minha.
E, baixando a voz, continuou com resguardo:
—Contas com a protecção de tua mãe? Estás bem aviada! Verás por que estradas ella te conduz á desgraça. Ia a aborrecer-te, com pejo o digo, e fugiste d'ella para o meu coração, que te acceitou. Agora foges de mim para ella. Deixa-te ir. Cavae ambas o abysmo da minha vida e da tua felicidade.
Saindo em direitura á sala do almoço, onde a fidalga ficára conversando com o hospede, parou Gonçalo para ouvir o que diziam, temendo que sua mulher estivesse aniquilando as esperanças do noivo. Desconfiou com acerto. Eis aqui a parte do dialogo que elle ouviu:
—São cousas muito melindrosas, sr. conde—Dizia D. Maria das Dôres respondendo ao titular.—O amor não{130} vem depois, se não tem já vindo antes do casamento. Está v. ex.ª enganado pela inexperiencia. Os experimentados é que sabem o que é casar na esperança de alcançarem do tempo o milagre, que não fez o coração. Tão infeliz seria v. ex.ª como a minha filha. O desagrado de uma situação contra vontade, é que faz as impaciencias do genio, as irritações que são o fel de quem o dá aos outros. Meu marido casou violentado comigo; e eu fui violentada a casar com elle. O resultado poderia elle dizer-lh'o, sr. conde, se não houvessem uns certos infortunios, que os maridos se pejam de confessar, ao mesmo tempo que se mostram de todo despreoccupados de outros infortunios, que são as verdadeiras vergonhas. Se sou infeliz porque fui casada á força, ou por obediencia, que culpa tenho eu de o ser? Porque não hei de eu dizer bem alto que o sou, a fim de ser exemplo aos paes, e torna'-los brandos, se as filhas, n'este ponto do casamento, lhes não obedecerem cegamente? A desgraça ha de ser util a alguem, penso eu, sr. conde; e por isso bom é que a minha desgraça seja util a minha filha, e a v. ex.ª. Renuncie á idéa de casar com Maria Henriqueta. O conde de Monção ha de achar uma digna mulher onde a desejar, formosa, rica, e nobilissima.
Esteve o conde pensativo alguns segundos, e respondeu desempenadamente:
—Não póde ser.
—Não póde ser o quê?!—redarguiu D. Maria, com a fronte avincada.{131}
—Hei de casar com a menina, porque a vontade do sr. Gonçalo Malafaya é que ella case comigo.