Era muito affrontosa para Maria das Dôres esta brutal saída. Levantou-se ella de um salto e exclamou:
—Não casará, sr. conde, porque é vontade minha que Maria Henriqueta faça a sua vontade.
—V. ex.ª tem um genio dos meus peccados!—atalhou o conde com um comedimento que, em outro individuo, parecera zombaria.—Ora queira sentar-se, minha senhora... Isto não vae a ralhar.
—Sr. conde, eu tenho ordens a dar no governo da minha casa. Vou mandar-lhe meu marido, e peço desculpa.
Gonçalo estava como a querer esconder-se de si proprio, no escuro de um corredor, onde as palavras sonoras da prima lhe iam apertar a alma. O homem tinha pejo de mostrar-se ao conde, e repugnancia em confirmar o que sua prima tinha asseverado. Era, porém, improrogavel a demora, desde que o hospede ficou sósinho, sentado á mesa, a contar os palitos de rama, que crivavam um javali de prata, imagem do coração d'elle, na analogia dos espinhos, e talvez na brava natureza da alimaria.
Entrou Gonçalo com aspecto de réo, se não era antes o exterior de grande amargura.
—Pelo que vejo—disse o conde—sua senhora oppõe-se ao casamento! V. ex.ª fez mal em m'o propôr antes de saber, se era vontade...
—Minha prima—respondeu urbanamente o fidalgo—verdadeiramente{132} não se oppõe; é que sentiu, melhor que eu, a indisposição de Maria Henriqueta para o casamento, e...
—Então é a menina que me rejeita?
—Não o rejeita, sr. conde; recusa casar por emquanto.