—E v. ex.ª porque m'o não disse ha mais tempo?! Eu fui chamado para isso; e só agora é que sua filha acha cedo para casar?! Entre homens da nossa qualidade, estas cousas tratam-se mais pontualmente.
—Recebo com humildade as censuras, que v. ex.ª me fez—tornou Gonçalo, ferido nos seus brios; mas soffrendo a offensa, em castigo da leveza com que decidira do destino da filha—Pensei que Maria Henriqueta via o mundo pelos meus olhos e sentia pelo meu coração. Enganou-me o amor de pae, e o desejo de lhe dar esposo superior aos seus merecimentos d'ella. Minha filha vae entrar n'um mosteiro; é a satisfação que eu posso unicamente dar a v. ex.ª.
—Deixe-se d'isso!—atalhou o conde—Nada de mosteiros! Se a duvida do casamento está na vontade da menina, deixe-a ao tempo, que ella mudará de idéas a meu respeito. Ponto é que fale com ella, e lhe vá ganhando o coração pouco e pouco. Pois se a menina só me viu uma vez, hontem á noite, como ha-de ella já gostar de mim?! Deixe-me conversar com sua filha mais algumas vezes, sr. Malafaya, e o resto cá fica por minha conta.
—Da melhor vontade, sr. conde. Agora mesmo eu{133} dou ordem a minha filha para ir á sala. Queira v. ex.ª vir lá espera'-la.
Quando Gonçalo voltava de acompanhar o conde á sala, saíu-lhe a esposa ao encontro, e disse-lhe:
—És tolo, meu querido primo! Desconheço o teu antigo entendimento e desembaraço!
—Que queres dizer n'isso?
—Quero dizer que reduzes tua filha a achar-se a si mesma ridicula! Que vae ella a fazer á sala? Que tem ella que dizer a esse homem, que eu não lhe dissesse já?
—Que o despersuada ella mesma.
—Se ella o não persuadiu de cousa nenhuma, com que razão a forças a ir despersuadil'-o? Tu desces da tua posição, e obrigas a descer tua filha!...