Chamado segunda vez, foi Gonçalo receber as despedidas do hospede de vinte e quatro horas incompletas. Já encontrou na sala a prima, com prazenteiro sorriso, e a filha de tranquilla apparencia, recebendo os agradecimentos do infeliz fidalgo, que movia mais á piedade que á irrisão.
Á piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguem? Os amores desditosos só acareiam dó{138} para as victimas resignadas. Umas ha que de antemão se desopprimem em traças de vingança, e essas mais são para incutir malquerença que pena.
O adeus de Gonçalo Malafaya foi um aperto de mão convulso. O conde, para mostrar-lhe intelligencia de muda expressão, disse com sombra de riso:
—Não tem duvida, sr. Malafaya... O mundo dá suas voltas; veremos onde isto pára!...
Teria o repudiado noivo caminhado uma legua na direcção do seu solar no Alto-Minho, quando o coração lhe transmittiu ao pulso esquerdo raivoso impeto de sustar as redeas, e revirar a cabeça do cavallo para o Porto. Os dois mochilas deram praça ao galope desapoderado do ginete, e seguiram, notando mais uma das extravagancias do amo.
Foi o conde apear n'uma estalagem, e d'alli avisou um fidalgo, seu primo, que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este successo, na pequena roda dos fidalgos do pequeno Porto de então, fez grande ruido, e chegou aos ouvidos de Malafaya como se por elles entrasse um dardo a ferí-lo em seu pundonor. Inexgotavel calix o do atormentado fidalgo! Nem esposa, nem filha, nem a sociedade! Todos e tudo conjurado a levá-lo ao apuro da desesperação!
Ao outro dia, contavam umas ás outras as familias nobres que os Malafayas tinham vexado o conde de Monção, despedindo-o na ante-vespera do seu projectado e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a geral opinião de que o conde fôra indignamente ultrajado,{139} e Gonçalo um baixo offensor para tão alto personagem. Ninguem inquiria, nem queria saber se Maria Henriqueta rejeitára o marido. Era pormenor, que humilhava e desauctorava os paes diante de suas filhas, uma semelhante causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas, e em menoscabo de Gonçalo e de D. Maria das Dôres.
Resolveu o fidalgo saír do Porto com sua familia a residir temporariamente em uma quinta do Douro, e de lá enviar a filha ao convento de Arouca.
Empeceu Maria das Dôres o plano, contradizendo-o com a precisão de mostrar aos seus detractores que alli estavam a pé quedo recebendo os tiros da calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que elles tinham ido esconder a sua indignidade na provincia. E rematou d'este theor:
—Se te julgas bem condemnado pela opinião dos nossos amigos e parentes, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo á inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para onde quizeres. Em quanto á ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo d'ella; mas é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será mordida na sombra por estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso occasião, com encerrá-la por castigo n'um convento. Castigá-la, porquê? perguntará o mundo; e, se tu disseres que a encarceras por rejeitar a mão do conde, o mundo fará os seus commentarios de modo que o tal desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não precipites{140} uma resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar não sei o quê. Um convento é uma casa com umas portas muito grossas; mas as portas abrem-se de par em par quando as pessoas, que não fizeram votos de lá estar, querem sair.