A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a mulher: não quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu até que ao seu quarto entrasse o som dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.
O conde de Monção não voltára ao Porto para deshonrar Gonçalo nem assoalhar o seu desdouro.
Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de cavallos, vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta averiguação, disseram-lhe que, no troço de cavallaria 6, destacado no Porto, entrára um tenente transferido de Lisboa, moço nobre de Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome, a residencia e as miudezas desnecessarias.
Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em attitude de entrar no pateo.
—O sr. conde!—disse Filippe com amigo sorriso.
—É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho contar-lhe o resto da historia, se é que a não sabe.
Peço ao leitor que marque á margem do livro, com uma cruz, este dizer do conde, porque não acha outro, que valha a nota.{141}
—O resto da historia?!... Refere-se v. ex.ª áquelle casamento, que fez favor de me contar ha dias?
—Pois então!
—Ah! agradeço extremamente a confidencia. Queira subir.