—Eu esperava isto...—disse Filippe.

—Já tenho animo!—exclamou ella.{153}

—Espera!

Filippe, tirando o manto e a farda, que lhe empeciam os movimentos, marinhou pelo tronco da arvore até fincar o pé no rebento que dava sobejo e seguro apoio a maior peso. Depois cingiu com o braço esquerdo o tronco, e disse a Maria que se pendurasse no ramo mais forte, e eminente á cabeça d'elle. Maria correu as mãos mimosas por sobre as asperezas da ramagem, e recurvou os dedos no mais afastado e grosso ramo que poude. Deixou o corpo ao seu natural pendor, impellindo-se com o pé fóra do muro. O despenho seria infallivel, se Filippe a não repuxasse a si, apertando-a ao peito com o braço direito.

Maria Henriqueta ria n'esta situação, e dizia:

—E se caímos abraçados?!

—Firma-te!—disse serenamente Filippe.—Apega-te ao tronco da arvore, que eu vou descer. Passa os teus pés devagar para o logar dos meus... Assim... Agora, larga-me, e segura-te... Bem... espera um pouco.

Disse, e saltou ao caminho; mas não se susteve em pé porque era grande o salto. Maria sobresaltou-se, e quiz resvalar agarrada ao tronco; mas Filippe já estava erguido, rindo da sua queda para serenar Maria.

Encostou-se á arvore, e disse:

—Desce, até encontrares os meus hombros com os pés. Depois, sem largar o tronco, deixa-te descer conforme eu me fôr abaixando, e salta quando eu te disser.