Enganára-se Maria das Dôres com as promessas do empregado na transmissão das cartas. Maria Henriqueta, ao fim de tres afflictivas semanas, enviou um proprio a Filippe, perguntando-lhe a razão porque a desamparára.

O tenente de cavallaria tinha de marchar n'aquelle dia com o regimento para Lisboa, onde se estava resenhando o exercito para começar a lucta com a França, cujos generaes se avisinhavam das fronteiras.

Pediu licença o tenente por dois dias: foi-lhe negada. Empenhou por si os seus amigos, senhores do segredo da sua vida; baldaram-se as solicitações. Filippe Osorio, á ultima hora, quando os clarins já tocavam a reunir á porta do quartel, viu a imagem de Maria Henriqueta, e ouviu um como gemido de moribunda, e um falar assim de quem se despede: «Vae, e volta alguma vez á minha sepultura!»

O tenente tomou as redeas do cavallo que o auxiliar{151} lhe offerecia, passou por diante dos clarins que o chamavam, viu ao longe, no occidente das esperanças da gloria, sumir-se a sua estrella, e fitou os olhos n'outra, que o chamava sobre um leito de agonia.

Desertou.

A mancha era negra; mas o disco resplendoroso, que lhe alumiava o coração e o ar em que ia aspirando a liberdade louca de amante, não lhe deixava ver a negridão da deshonra militar.

Na primeira terra em que pôde escrever liberalisou estipendio a um portador que levasse uma carta a Mirandella. Era um aviso a seu pae. Noticiava-lhe a deserção e o intento de roubar Maria ao convento e á morte. Pedia-lhe que estivesse um clerigo prestes a recebe'-los, logo que alli chegassem, e o dinheiro necessario para se refugiarem em Hespanha ás penas militares, e á perseguição de Gonçalo Malafaya.

Apeou em Arouca, e procurou Maria. Nenhum impedimento lhe estorvou falar-lhe. Acolheram-no na aposentadoria monacal, como primo da fidalga, que as religiosas amavam pelo muito que a viam padecer. Deu ella o plano da fuga, não facil, nem talvez exequivel. Maria devia transpor um muro, que seria morte certa, se o pé lhe resvalasse de um galho de arvore, em que fiava o apoio para segundo salto á estrada. Impugnou-lhe o plano o susto de Filippe; e ella, para aquieta'-lo, prometteu pensar em menos perigosa evasiva; mas pediu-lhe que tivesse os cavallos arreados na seguinte noite.

A lua banhava de livido alvor as paredes do templo.{152} O derradeiro nocturno tinha soado no campanario, alteroso vigia, como posto alli em guarda das esposas do Senhor. As paixões e as virtudes dormiam ou pareciam dormir lá dentro do mesmo somno. Cá fóra ramalhavam os arvoredos, e o norte assobiava nos agulheiros das torres.

Maria Henriqueta occupava um quarto sem rexas nem rotulos, logar privilegiado das reclusas, que inspiravam á prelada inteira confiança. O salto á cerca era facil e seguro, com o poderoso auxilio de um telhado de ermida contigua á parede. D'este ao jardim, só mulher que não amasse acharia perigoso o descer. Maria nem de leve sentiu o baque. Ficou sentada na relva, e ergueu-se logo, correndo para o muro, e procurando, entre as gabellas de varas podadas das videiras, uma escada de mão, que encostou á parede. Escalando o muro, tremeu da altura exterior, e viu que se enganára na distancia da arvore, que devia ajuda'-la na descida. Fincou os joelhos ao cume da parede, e foi-se arrastando até ao ponto da arvore, que o vento sacudia. Este inesperado incidente desalentou-a; só estando queda a arvore ella poderia aferrar-se aos ramos mais robustos, e verga'-los até tomar pé no galho chapotado. Estava ella assim aterrada e immovel com a vista desarmada a um e outro lado, quando, d'entre as arvores da outra orla do caminho, surgiu um vulto, que a gelára de medo, se a voz o não denunciasse ao mesmo tempo.