—Emmudece, serpente!—exclamou em furia o transfigurado{148} velho.—Enroscaste-te á minha mocidade, mataste aquella creatura divina, mataste a minha alegria, empeçonhaste o coração de tua filha, e estás agora minando-me a sepultura para esconderes de ti este phantasma de remorsos!...

A syncope, em que desfechou a desarrazoada apostrophe, delatava que os receios da loucura não eram de todo panicos. N'aquellas accusações era manifesta a injustiça.

Bem viram que Maria das Dôres foi de todo alheia ás desventuras de Beatriz de Noronha, sobre ser obrigada a acceitar o marido, proposto desde a sua infancia. O leitor póde negar sua sympathia ao caracter de Maria das Dôres; mas, se a punir com o seu odio, é injusto. Pender, em bem da filha, contra a imposição do casamento, é virtude para muitos louvores. Se o fez por animo contradictorio, feliz culpa a sua; se por experiencia de sua desgraça, abençoada defesa da pobre menina, e abençoada sempre, embora estes infelizes todos se venham a abismar guiados por suas estrellas funestas.

—Vae para o convento, Maria—disse a fidalga á filha.—Fia de mim que pouco tempo lá estarás. Eu hei de vencer teu pae, com habilidade e paciencia. Vou fazer, por teu amor, o sacrificio da humildade. Mas agora é preciso que vás. Se teu pae morre, tens de soffrer remorsos, e remorsos que hão de assaltar-te os dias todos da vida, embora os goses com o homem que amas. Com tempo, serás esposa d'elle; mas faz muito pelo seres com a consciencia tranquilla.{149}

Maria Henriqueta rompeu em choro nos braços de sua mãe, e foi d'alli escrever a Filippe, contando-lhe o seu destino, e as promessas da mãe. O tão apaixonado como generoso moço incitou-lhe a coragem do sacrificio, pedindo-lhe que o offerecesse a Deus como merecimento para ambos lhe merecerem mais tarde a sua benção.

Ao outro día, Maria entrou n'uma liteira com sua mãe, seguidas do simples prestito do capellão, a ama, creadas e lacaios.

Maria das Dôres, a antiga aia da Santa rainha Mafalda, entrou no seu quarto de infancia, e no de suas defuntas tias; e os dias de então, e só esses do seu passado, lhe vieram á memoria e amolleceram o coração até ás lagrimas.

A reclusa menina, ao ver-se alli, no calado dos claustros, debaixo dos profundos firmamentos, n'um dia em que os sinos dobravam á agonia de uma religiosa, e quando outra recebia as ultimas honras da sepultura, Maria Henriqueta pensou que ia morrer, e assim o disse na primeira carta, enviada a Filippe.

Demorou-se a mãe alguns dias no mosteiro, e apressou a saída, quando receou pelos dias de Maria Henriqueta. Foi o seu proposito, ao retirar-se, mover o pae a consentir no casamento, ou romper abertamente com elle e com o mundo, protegendo a fuga da filha, se outro expediente não viesse em redempção d'ella.

Ausente a mãe, augmentaram os terrores de Maria, e as lastimas nas cartas escriptas a Filippe. Em algumas,{150} pedia-lhe ella que a salvasse, pelo muito que ella o amára, e pelas muitas dôres com que quizera merecel'-o. Salval'-a era arrebata'-la do convento, fugir com ella, cumprir o juramento que lhe tinha feito, quando a chamou ao quarto da ama. Ao mesmo tempo, contava-lhe as nenhumas esperanças que a mãe lhe dava, e as diligencias que o pae fazia, para o remover para o ultramar, e tirar-lhes a possibilidade de se cartearem. D'isto lhe déra aviso a mãe, assegurando-lhe que as cartas de Filippe, apesar do suborno tentado no correio, haviam de chegar-lhe sempre á mão.