Que flagello de vida no seio da riqueza! que inferno n'aquelle palacio, arreado de sedas, de librés, de equipagens, de tudo que morde a inveja, e conjura a pobreza contra a caprichosa partilha de Deus!

Ergueu-se um dia Gonçalo Malafaya, ao cabo de uma{147} noite infinita de calculos dilacerantes. Alumiava-lhe o rosto o clarão sinistro da demencia. Viram-n'o esposa e filha, e gelaram de medo. Era a horas de almoço, ao qual desde muito o fidalgo não assistia. Entrou inesperado, cruzou os braços, e exclamou com energica vehemencia:

—É ámanhã!

—Ámanhã o quê, primo Gonçalo?

—Que a má filha ha de entrar no convento de Arouca, senão hei de dar-te um punhal para que m'o enterres no peito.

—Irei, meu pae, irei hoje mesmo, se v. ex.ª o determina.

—É ámanhã—bradou elle.—Eu morrerei depois de ámanhã. Quando eu estiver sobre terra, sáe do convento, cospe na minha cara, e levanta-te com a herança da casa de teus avós e com a minha maldição.

Maria Henriqueta encostou o peito ao bordo da mesa, e cobriu o rosto com as mãos. Chorava; e o pae sentiu-se mais desopprimido com as lagrimas da filha. Deu alguns passos até defrontar com ella, e disse:

—Essas são as menos amargas que tu choras. Outras virão... tenho aqui na alma o presagio de outras, que has de verter sobre o cadaver do homem que me aponta ao peito o ferro, com o braço guiado pela mão de minha mulher.

—Penso que enlouqueceste, primo!—disse Maria das Dôres.