—Pelos seus fóros de honra, os fóros da sua dignidade,{143} os fóros da sua vergonha. Pergunto a um homem vil com que direito me vem pedir contas a mim do desprezo com que foi recebido por Maria Henriqueta. Pergunto ao desprezivel conde de Monção, se é mais estupido que abjecto, vindo provocar a duello um homem, que mal conhece, por que me vê entre si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as grosseiras tentativas de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu pergunte pelos seus fóros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle responder com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mãos e deshonrar-lh'o debaixo dos pés. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade não péde contas a homens de bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe pesa no vacuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no meu cargo, porque eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar ámanhã o sangue por ella, em quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estupidos orgulhos, quer desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de uma senhora, que eu prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para desempenhar a sua casa destruida em dissipações. Nem este supremo desaire lhe falta! Até á vista!
O conde de Monção estava pertencendo ao dominio da farça. Olhos arregalados e queixo pendido é a maxima expressão do espanto. No conde era pavor a ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada palavra da crescente apostrophe, os brios de duellista europeu derretiam-se em frigido sangue que lhe arripiava{144} as arterias. Tinha razão o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam raios, e os labios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde ignorava que as idéas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de um simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra elle as armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes de servirem á ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no fôro da sua consciencia o conde para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia não é o termo proprio. Cobardes são aquelles que sossobram na defeza de sua justiça. Outros, que atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos, que lhes fazem rosto, esses são apenas infames na aggressão; e, quando fogem, prestam involuntaria homenagem á justiça. Pode-se jurar que o conde de Monção não meditava n'estas distincções, ao retirar-se do local em que o deixára petrificado Filippe Osorio. Circumvagou os olhos, como a certificar-se de que ninguem presenceára o insulto, e foi seu caminho murmurando por entre os dentes cerrados:
—Tu m'as pagarás, ou eu não seja quem sou!{145}
[VI]
Correspondiam-se, diariamente Maria Henriqueta e Filippe. Bafejava-os a fortuna na pessoa de Eugenia, que a certa hora da noite dava e recebia as cartas pelo muro do jardim. Eram felizes porque amavam, esperavam, e confiavam nos milagres da sua constancia.
O pae de Filippe era pessoa de grandes relações com a fidalguia transmontana. Os mais superciliosos cavalheiros prezavam-se de o chamarem primo. Todos se lhe prestavam a cooperar para persuadir a Gonçalo Malafaya o acerto do casamento com um moço tão bem prosperado em sua carreira militar, e de nascimento assaz illustre para emparelhar, sem desaire, com os mais qualificados no reino.
A fidalguia empenhada acertou de chamar a si os parentes de D. Maria das Dôres, que eram tambem os de Gonçalo; mas preponderavam n'ella mais. Confluiram á mãe de Henriqueta cartas de muitas senhoras suas amigas da mocidade, e das suas mais intimas no mosteiro de Arouca. Uma açafata de D. Carlota Joaquina escreveu-lhe{146} em nome de sua ama. É onde podia chegar a influencia do fidalgo de Mirandella, mais por amor do filho que da riqueza da noiva.
Maria das Dôres inclinou-se a favor de Filippe, e mostrou ao marido a petição da açafata. Gonçalo Malafaya, quando tal viu, soffreu um accesso de vertigem furiosa, e rasgou a carta entre os dentes. D. Maria teve medo dos arremessos do marido, e deixou-o bravejar e urrar contra a conjuração dos seus matadores.
Maria Henriqueta, amoravel com seu pae por que tinha a trasbordar o amor do peito, affrontou-se com o medo, e foi supplicante aquietar-lhe os impetos. O velho repelliu-a com arrebatada virulencia.
Velho lhe chamei eu pela primeira vez: estava-o deveras; sem um cabello negro, e não tinha ainda quarenta e oito annos! Fibra no rosto uma só não tinha lisa do arar do fogo interior. Abaixo do rebordo das orbitas parece que o absyntho das lagrimas lhe calcinára a pelle. Inclinava-se já para o chão, como a pedir á terra que o acolhesse e escondesse do seu mau anjo! Nas horas de solidão, poderiam ouvi'-lo exclamar muitas vezes: «Ó Beatriz de Noronha! tira-me este calix dos labios, ou verte-m'o de uma vez no coração, para que eu morra de uma só agonia!»