—Não sejas creança, Maria! disse Filippe.—Aquillo quer dizer que são tres horas.

Caminharam.{155}

O frio da manhã golpeava o rosto de Maria, e as redeas caíam-lhe dos dedos entrezilhados.

Filippe sentou-a sobre as capas dos coldres, apertou-a ao seio, e aqueceu-lhe as mãos no acolchoado da farda. E assim caminharam, até que o sol dourou o melhor dia d'aquellas duas existencias.{156}

{157}

[VII]

Entraram ao romper d'alva em Mirandella, a hora em que os irmãos de Filippe, desconfiados da demora do irmão, saíam a procura'-lo no caminho de Arouca. Ás dez horas da manhã d'esse dia, celebrou-se o casamento na capella da casa, por ministerio de um abbade parente do noivo, homem que não lera no Evangelho o preceito do consentimento paterno para a validade do sacramento. Foram testemunhas os irmãos do esposado, e padrinhos os paes.

Ao outro dia chegou a Mirandella a ditosa Eugenia, que o fiel creado fôra buscar, deixando em Amarante os amos. Contou ella que na tarde d'aquelle dia da fuga chegaram a Arouca alguns soldados de cavallaria, com um commandante, pedindo novas de um tenente, que desertára; e que n'essa mesma tarde tinham saído para outros sitios.

Comprehendeu Filippe o perigo da sua situação, e quiz fugir, antes que a Bragança, quartel do seu regimento, chegassem ordens para a sua captura. A parentella{158} votou unanime pela resistencia, confiada no poderio que exercia sobre o povo. Filippe combateu o denodo inopportuno, por amor de sua esposa, a quem tristes festas de nupcias seria uma briga sanguinaria do povo com a tropa.

Muniu-se o desertor de basto dinheiro para dois annos de desterro, e internou-se em Hespanha, com os dois velhos creados, que entre si se queriam por terem sido, em seis annos, os confidentes dos infelizes amores de seus amos, já agora unidos sagradamente para sempre.