Deixemo'-los em Hespanha procurar o remançoso eden de seus anhelos. Irão a Sevilha? a Granada? a Cordova? Irão a toda a parte, hão de encontrar as delicias reflectidas do céo que levam na alma.
Deixa'-los, que é delicadeza não irmos de pós elles. A suprema felicidade de dois noivos tem o seu pudor, que se quer resguardado de olhos alheios.
Vamos ao Porto, e entremos em casa de Gonçalo Malafaya.
Ao amanhecer do dia immediato ao da fuga, chegou de Arouca o enviado da má nova. O fidalgo, que já sabia da deserção do tenente, e incitára a saída do destacamento para captura'-lo em Arouca, nem por isso ficou menos surprehendido. Correu ao quarto de Maria das Dôres, e exclamou:
—Maria Henriqueta fugiu do convento!
—Estás a sonhar, ou sou eu que sonho?!—disse a esposa.
—Alli está o portador de Arouca! Fugiu sua filha,{159} senhora! Ahi tem a sua obra! Faltava-me esta deshonra: devo-lh'a, senhora, devo-lh'a, como ultimo golpe, que me ha de matar!
Disse, e refugiu para o seu quarto, tropeçando nos corredores, não aclarados ainda pela luz da manhã. Pouco depois, voltou á camara da esposa, e bradou:
—A senhora está na cama?! Levante-se que é preciso protestar contra a ignominia que pesa sobre nós! Levante-se, que d'aqui a pouco seremos insultados pela canalha! Vista-se de lucto, e quero que todos os meus brazões de armas, em todas as minhas casas e quintas, sejam cobertos de negro! Maldita seja a mãe que perdeu sua filha!
D. Maria agitou com força a campainha, e disse ao marido: