Vieram os esposos acompanhados até á fronteira pelo alcaide e suas filhas. Ahi se despediram com muitas saudades e esperanças de se encontrarem, passados dois annos, no Porto. O cavalheiroso hespanhol disse a Filippe Osorio e á consorte: «Se alguma vez fordes desgraçados na patria, lembrae-vos do céo de Hespanha, e do vosso segundo pae, e de vossas irmãs. Em nossa casa sois familia nossa; e já sabeis que em toda a Castella sois como bons filhos da nossa boa terra. Seja a nossa amizade um modelo do que deviam ser os irmãos da peninsula, os que se apartaram eternamente odientos em Aljubarrota e Montes-Claros. Se fordes felizes, nem por isso nos esqueçaes.»
Chegaram a Mirandella. D'ahi escreveu Maria Henriqueta a sua mãe perguntando-lhe se podia ir para o Porto confiada no perdão do pae. A resposta carecia de{168} inteira affirmativa; mas accedia ao desejo da filha. «Teu pae, ponderava D. Maria—diz e desdiz; ora condemna, ora perdôa; todavia, eu conto comigo e tu com a tua filhinha. Por mais mal que te faça, serão só palavras: e palavras o vento as leva, e outras te dirá depois que te compensem algum dissabor. Em todo o caso, vem, que eu vou dar o ultimo assalto, e segurar o lanço.
Escripta esta carta, D. Maria das Dôres convidou o marido a passar duas horas em seu quarto, antes de recolher-se. Gonçalo accedeu ao geito blandicioso da esquiva prima, raras vezes meiga. A soledade, a tristeza, a velhice, e o quasi desamparo em que o deixaram amigos e parentes, crearam n'elle a precisão dos carinhos.
Foi Gonçalo ao quarto de sua mulher, e encontrou-a lendo a carta de sua filha.
—Quem te escreveu, prima?—disse elle.
—Foi a nossa pobre Maria Henriqueta.
—Tem fome por lá? O amante abandonou-a?
—Não digas «amante», primo. Marido é o nome que tem.
—Marido, sem o meu consentimento! As leis não me dispensam de ser ouvido.
—Dispensa-te a lei de Deus, meu Gonçalo. Estão casados, e eternamente casados.