—Que fatalidade!... Mais uma mulher!...—exclamou elle com entonação pouco abonatoria do seu bom siso.—Então isto é uma cadeia de desgraças? Melhor lhe fôra á mãe desobediente esmagar a filha no berço, para não crear ao seio a vibora que me ha de vingar!

—Cala-te, meu primo, meu querido Gonçalo! Que sombrios vaticinios os teus! Quando te alumiará a Providencia Divina essa escuridade em que vives?

—Ha de alumiar-m'a a lampada da sepultura. Isto{170} em mim é o horror das trevas eternas, sem mais luz nem esperança!

—Ora, vem cá, filho!—tornou com extrema maviosidade a esposa, tomando-lhe as mãos, e aconchegando-as do peito—Não desprezes a luz que o céo te manda nos olhos carinhosos da tua netinha. Verás que vida nova se nos faz na velhice. Has de sentir o que é consolar-se a alma perdoando. Sabes tu quantas penas terá curtido nossa filha, desterrada, por terras extranhas, mudando de nome para não sacrificar o marido...

—O marido! atalhou em voz soturna Gonçalo—O marido! Se ella podesse convencer-me de que não casou... perdoava-lhe!

—Não digas tal, primo, por dignidade nossa e d'ella! Pois tu negas perdão á esposa, e da'-lo-ias á concubina?! Cala-te, que desvarias; a tua razão e coração devem contradizer esse desatino, que é uma doença do teu espirito. Eu sou mulher, e mãe, e não perdoaria á filha, que, contra nossos conselhos, se tivesse sacrificado a um infame seductor. Torna em ti, meu primo, e convence-me de que estás bem com a tua consciencia, perdoando o mal, que te fez a desgraçada, que só por amor invencivel poude desobedecer-te. Aqui tens a carta que me ella escreve de Mirandella; olha estas expressões: Ás vezes penso que meu pae ha de amar muito esta creancinha, que tem já no rosto signaes de vir a ser muito parecida com elle. Se eu podesse mandar este anjo adiante de mim, seria elle quem me abrisse as portas do paraizo de minha familia: Vês tu? É a tua Maria{171} Henriqueta que fala assim ao teu coração. Tu já lhe perdoaste, não é verdade?—continuou a esposa com transporte, beijando-lhe as mãos e o rosto—Posso dizer-lhe que venha afouta beijar estas mãos, que eu beijo tão reconhecida como ella?

Gonçalo caíu sobre a cadeira d'onde, momentos antes, se levantára na tenção de fugir do quarto. Escondeu o rosto no seio, e passados anciosos instantes, murmurou:

—Que venha; mas que eu a não veja.

Saiu Maria das Dôres vaidosa do seu triumpho. As ultimas palavras do marido equivaliam ao perdão. Não querer ve'-la seria a transição para ve'-la, e ama'-la. N'este presupposto, deu como rehabilitada a filha e participou ufana aos seus parentes e visitas o ter ella congraçado Gonçalo com seu genro. Os parentes, alegres com a nova, iam da sala ao quarto do fidalgo felicita'-lo, com grandes louvores de seu juizo e nobreza d'alma, censurando ao mesmo tempo, que tardiamente o fizesse. Estes emboras irritaram o velho, por partirem de pessoas, que elle tinha em odio á conta de lhe molestarem os brios, chasqueando-o agramente por ter querido, á fina força, casar a filha com o conde de Monção.

—Eu não disse ainda que perdoava!—redarguia o fidalgo irado—A prima Maria das Dôres está brincando com a minha decrepitude. Não me arrependo do que fiz; hei-de ter brios até ao fim da vida, e muito desprezo para quem duvidar se eu os tenho.