Esta resposta, seccamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta ganhasse profunda aversão á regente.

Era-lhe licito escrever a seu marido. N'esse respiro gastava ella as horas do dia e muitas da noite; mas pequena consolação é essa, quando as cartas são como cauterio á chaga, sem o beneficio da cura. Respondia-lhe Filippe, fingindo animo, e inventando lenitivos de paciencia, sendo unicamente sincero nos da esperança. Baldado intento! A saudade e a desesperação recrudesciam. Tomava a filhinha nos braços, como taboa de naufragado, e nem assim, nem á luz dos olhos d'ella via ao longe a redempção.

Uma só menina das orphãs pobres ella chamára á sua intimidade: era Rita de Cassia, illustre de nascimento, mas desamparada de pae e mãe, que a lançaram de si como vergonhoso testemunho de a trazerem á vida n'uma epoca de desdourados amores. Affrontaram o escandalo, e fugiram affrontados ao dever!

O pae, que escondia o titulo, para livrar-se d'ella, e salvar o nome de sua mãe, calou a consciencia entregando-a á caridade da Santa Casa, e para isso declarou que a menina não tinha pae nem mãe. Antes elle falasse{181} a verdade, e o genero humano teria de menos um estygma.

Rita era commensal de Maria Henriqueta, e consolação de muitas agonias, se o chorar com quem chora é consolar. Que provas a orphã deu, passados mezes, do seu reconhecimento e cega amisade á fidalga e infeliz!

Depois de um mez de reclusão, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta, adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas. Durante o curto prazo da doença e da agonia, era geral no recolhimento o receio de que a mãe enlouquecesse, morrendo a creancinha. Nos braços d'ella passou a menina os paroxismos, aquella estortorosa respiração, que é uma lenta asphyxia, e acaba por agudissimo arranco. Tiraram dos braços de Maria o inanimado corpo, o envoltorio macerado do anjo. A mãe correu ao longo dos corredores, soltando gritos, sem destino, sem paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam, arrancando-se enfurecida dos braços, que a detinham. Poderam Eugenia e Ritta de Cassia leva'-la ao seu quarto, e excita'-la a chorar, como remedio unico. Uma e outra lhe falavam de Filippe; e, como lhe dissessem que o marido morreria, sabendo a morte da filha, já Maria Henriqueta, aterrada de dôr maior, pediu forças a Deus para mitigar com rogos de conformidade a consternação do esposo.

Lembrou-se então do desmaio do marido ao abraçar a menina, e das palavras com que explicou o seu desalento: «Parecia-me que era a ultima vez que via a nossa filha.»{182}

Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no recolhimento[[1]], dizem singelamente:

«A sua consolação unica lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha. Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitorios. Todas choravam com ella, e eu tambem, com quanto então tivesse nove annos.—Falta-me um pedaço de minha alma!—gritava a pobre mãe. Que formosa era a menina! Teria um anno. Foi enterrada em Santo Ildefonso. Veiu alli busca'-la o abbade n'uma locomotiva que era como os carrinhos de agora, pouco mais ou menos. Dizia-se que ella ajoelhára ao pé da filhinha, quando lh'a tiraram ultimamente, já amortalhada, e dissera:—Vae pedir ao Senhor a liberdade de teu pae, meu anjinho!»

Ao outro dia, tinha ella de responder á carta do marido, que parecia esquecer-se de sua situação, para falar da menina. «Dá-me cuidado—dizia elle—a doença de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de a perder. Não merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer levar para si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um ao outro.»