E havia de responder a esta carta a pobre mãe, quando a filha já estava sepultada! Qual outro coração{183} se abriria a recolher-lhe as lagrimas? Como havia de fingir ella uma linguagem socegada? Como abafar sua paixão, em quanto escrevia a resposta? Que dôres a vida tem!

E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua afflicção, obedeceu ao impulso do desespero, amaldiçoando o pae, o destino, e Deus. As blasphemias era a carta do marido que lh'as incitava, no periodo trasladado. Deus lhe levára a filha, no momento em que o carcere, a separação do marido, e a solidão, alguma vez teriam desafogo, nos afagos da creança. A misericordia do céo lhe descontaria na balança das impiedades o punhal agudissimo, que lh'as faria resaltar do coração, e jámais da consciencia. Na carta, falando da filha, apenas disse: «Se ella hoje fosse do céo, pediria ao Senhor a tua liberdade.»

Porém, o silencio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas horas a infausta nova.

Estavam no Porto os irmãos de Filippe Osorio, e esses lh'a levaram.

Succumbiu aquella forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra idéa cedeu ao primeiro accesso de febre.

Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ella directamente ao castello da Foz, e soube que o marido estava perigosamente enfermo. Fez-se uma terrivel explosão no animo varonil de Maria. Tremeu a regente da investida vertiginosa, que ella lhe fez no quarto, exigindo que lhe abrissem as portas. Diz a minudenciosa{184} noticia d'estes successos, dada pela indicada senhora, que mais alguma vez citarei: «Nas crises de maior exasperação Maria Henriqueta parecia possessa. Com todas se travava de razões, e trazia na mão uma chibata de junco, que vergava, e sacudia, em ar ameaçador, principalmente entrando na cella da regente; e a regente tremia d'ella, e da chibata, por amor á sua pelle, que já tinha então oitenta e um annos, e era estimavel pelle por ser de dura.» No final d'este faceto periodo se denota a má vontade que a minha illustre informadora ainda conserva á sua regente de ha cincoenta annos!

Estava pois, a octogenaria regente alapada no seu cubiculo, quando Maria Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em punho, ordenando que se lhe facultasse a saída, para visitar seu marido, que estava doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou animo, quando viu a sub-regente, a sachristã, e outras funccionarias da casa deliberadas a defende'-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas que Maria Henriqueta espaçasse até ao dia seguinte a saída, para se legalisar o facto com a licença do provedor da Santa Casa.

A fidalga não insistia muito tempo n'uma mesma idéa. Andava a baldões de sua afflicção, ora abraçada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora repellindo-as ambas desabridamente.

Foi aquella noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou, delirou em corridas de uma a outra extrema{185} da casa. Na seguinte madrugada, mandou a regente informar o provedor, e este á frente da mesa da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e chamou ao locutorio Maria Henriqueta, com o intento de reprehender-lhe as impaciencias, e conforta'-la com palavras esperançosas de breve saída. Veiu a enclausurada, cuidando que ia receber a licença; mas, ouvidas as primeiras palavras, azedou-se-lhe tanto a dôr e a colera que o provedor suava de ouvi'-la, e os da mesa estavam como que passados de tamanha ousadia, affronta original n'aquella casa de humillimas victimas.

Fatigada de exprobrar a tyrannia do pae e a impiedade dos verdugos, que lhe mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os na grade, entrou na cella esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de Rita, e disse-lhe com a seriedade de um proposito de demente: