—Havemos de fugir hoje d'aqui: tu vaes comigo, Rita, se tiveres coragem.

A orphã temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:

—Por onde fugiremos nós, minha senhora?!

—Cala-te, que eu sei por onde se póde fugir. Queres ir?

—Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir d'estas paredes, que nem janellas teem.

Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filippe, escripta{186} por extranho pulso, e assignada por elle. Era animadora; a razão estava normal; a filhinha pedira por seu pae a Deus; elle mesmo se deleitava n'esta doce persuasão; e os irmãos, que o rodeavam, queriam salva'-lo com ella.

Aquietou-se algum tempo o espirito da esposa; e ao voltar a intermittencia do desespero vinha já menos descomposta. O plano da fuga prevaleceu ás melhoradas novas.

De tarde, saiu sósinha Maria e foi orar para o côro; depois disse que queria descer á egreja para resar de perto aos altares, e teve a licença, com grande aprazimento da regente, que tirou do devoto acto bons auspicios. Foi á egreja, e quiz estar a sós com Deus. Relanceou os olhos a todos os lados, esperou que saíssem do côro algumas orphãs que a observavam, e deteve-se a reparar n'um postigo chamado a ministra, por onde as recolhidas recebiam a communhão, espaço com dois palmos de largo sobre palmo e meio de altura. Feito o rapido exame, saíu da egreja, e recolheu-se á sua cella com semblante socegado, e um brilho de extranha alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua tenção. Chorava a pobre mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstaculos, aos quaes Maria respondia sempre vencedora.

Vamos ver os prodigios de elasticidade, obrados pelo coração sobre o corpo de Maria Henriqueta.{187}

[III]