Veiu prestes a Lisboa tomar conta dos seus vinculos.

Procurando um usurario que lh'os acceitasse como hypotheca de alguns contos de réis, ninguem os queria por mais do valor dos rendimentos de tres annos, porque a magreza livida de Alvaro aterrava os agiotas.

Um mercieiro, antigo creado de seu pae, sabendo que o fidalgo barateava á usura os seus bens, apresentou-se-lhe para acceita'-los como hypotheca de uma somma quasi egual ao valor d'elles.

Alvaro abençoou o seu destino, e receoso de que o mercieiro se arrependesse, apressou o contracto.

O comprador, porém, clausulou que em sua mão ficaria uma certa somma para acudir ás necessidades da esposa do vendedor, se ella um dia as sentisse. Alvaro acceitou essa hesitação maravilhado de que o inepto logista não pedisse a assignatura consentanea de sua mulher!

Este mercieiro conhecia frei Antonio dos Anjos. Captivo do benevolo interesse d'elle, o padre fôra-lhe contando os infelizes acontecimentos d'aquella casa. O velho creado de Gonçalo da Silveira, quando soube que seu amo expirára, quasi desamparado, sem seis vintens em dinheiro para uma missa, chorou, e protestou valer ao filho, quando o soccorro lhe aproveitasse depois de uma lição amarga.

III

Em 1842, Alvaro fugindo aos credores de Pariz, de Londres, de Madrid, de onde quer que desbaratou o seu e o alheio, appareceu em Lisboa pedindo ao mercieiro que lhe valesse. A desgraça quebrára-lhe a soberba. Alvaro pedia com humildade, se não era antes relaxamento, soccorro ao creado de sua casa. O logista deu-lhe a quantia que ficára, como em deposito, para ser dada a Maria, dizendo que ella a mandára entregar a seu marido.

Recebeu-a com indifferença, e consumiu-a obscuramente em uma roda que não era a sua, na convivencia de individuos que, sómente no abysmo da desgraça, sem honra, se encontram.

Padre Antonio dos Anjos não sabia dizer a Maria, onde seu marido estava. O mercieiro é que não perdeu de vista o filho de seu amo, com a mira de levanta'-lo, quando elle abrisse os olhos no extremo caír de perdição.