O abstrahido moço, entrou ne egreja e ajoelhou. Maria soltára, no seio de uma amiga, um ai que o denunciára. A amiga, electrisada pelas lagrimas felizes da secular, pediu á prelada se lhe consentia que tocasse o orgão durante a missa. Obtido o consentimento, fez soar, magestosa de tristeza, tristeza suavissima que dulcifica as lagrimas, a musica do Te-Deum laudamus.
Na fronte de Alvaro eriçaram-se os cabellos: a felicidade trasbordava-lhe do seio em lagrimas, corria-lhe o corpo o calefrio do arrebatamento, esse phenomeno inexplicavel que tantas vezes abala as organisações delicadas.
IX
Soube-se logo a causa da perturbação de Maria. A prelada quiz saber porque chorava assim. A docil senhora não podia nem devia esconder o motivo das suas lagrimas. Pediu uma grade para receber seu marido, e a prioreza, ensinada pelo coração que adivinhava os desejos de Maria, pediu-lhe para acompanha'-la á grade. A mulher de Alvaro apertou-a ao seio com alvoroço de contentamento.
--Venha comigo, minha mãe,--disse ella--Eu preciso que elle ouça as palavras que Deus manda ao seu coração. Dê-lhe a elle a felicidade no infortunio como m'a deu a mim. Não espero que elle me dê um amor como eu o esperava antes de experimentar as angustias do desprezo; mas se for possivel converte'-lo ao temor de Deus, elle ha-de estimar-me, e com a minha estima soffrerá os trabalhos da vida, sem a impaciencia que o faz blasfemar. Oh! meu Deus! elle é tão novo e tão desgraçado! Que longa vida de desesperação será a d'elle, se não conseguirmos mostrar-lhe que se póde ser pobre e feliz!
A prelada pediu cinco minutos de espera. Recolheu-se em oração ao seu oratorio, e voltou com o sorriso de esperança para Maria, e a confiança em Deus no coração.
Entraram na grade.
X
Alvaro estava em pé, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia entrar. A prioreza, apenas entrou com a secular pela mão, disse mui affavelmente:
--Eu não esperei que me apresentassem o sr. Alvaro para ter o prazer de cumprimenta'-lo. Conheci n'esta casa suas tias-avós, conheci sua mãe, e seu pae e toda a sua familia. Até conheci um anjinho do céo, que me disseram ser esposa de v. ex.a Tratei de averiguar se era verdade. O mundo dizia que sim, o anjinho tambem dizia que sim, e eu disse sempre que não, porque não acho natural que o possuidor de um thesouro, vindo do céo, o lançasse de si. Teima a minha Maria em dizer que é sua, e eu digo que não póde ser senão de quem eu quizer. Agora é minha filha e não póde ser sua esposa, sem que v. ex.a m'a venha pedir com todas as formalidades de noivo.