--E dar-m'a-ha v. ex.a?--perguntou Alvaro correspondendo com jovialidade á graça risonha da prelada.

--Dou-lh'a--replicou a prelada--com uma condição. Há de vir viver ao pé de nós.

--Como, minha senhora?!

--Ha-de vir viver comnosco. Aposto que está lá fazendo seus entes de razão contra a violação do claustro? Eu lhe digo, meu genro, uma freira, que tem uma filha como esta, dá um testemunho de que se deixou arrastar por alguma d'essas paixões feias que são a origem d'estes anjos tão lindos! V. ex.a está-se rindo?! Então ouça-me agora seriamente, e esta Maria, que está chorando e rindo ao mesmo tempo, escute tambem. O sr. Alvaro vem viver comnosco, não é bem comnosco, porque entre a nossa casa e a sua ha uma parede. Então já sabe para onde vae?

--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.a.

--Vae para casa do nosso capellão, que é um egresso chamado Antonio dos Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creança traquinas, que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempção de um escravo do mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja.

Maria rompeu em soluços e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a face, como se afagasse uma creança. Alvaro estava immovel, com os olhos rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da ainda formosa Maria.

XI

--Assim a chorar (continuou a freira mudando para o tom jovial) não podemos combinar as nossas escripturas de casamento, nem as precedencias que hão de dar-se antes de se unirem os meus filhos. O sr. Alvaro ha de estar dois mezes na companhia do nosso capellão: ha de vir todos os dias a esta grade almoçar com a sua velha sogra e com a sua futura esposa; ha de vir todas as tardes saber como está o rheumatismo da decrepita prelada, e traduzir-me do francez um sermão do padre Massillon, porque eu já não posso ler. Quando não estiver para ler á velha, ha de me contar o que viu nas suas viagens. Para tornarmos bem amena esta santa vida que projectamos, ha de vir para esta grade o dote que eu dou á minha menina: é um piano, e ella ha de perder o seu natural acanhamento e tocar umas musicas tristes que levam a consolação ao espirito, e trazem de dentro um tributo de lagrimas aos olhos. Ora, pois, meu genro, responda se está pelas condições que eu acabo de propor-lhe.

--Minha senhora...--balbuciou Alvaro.