XIV

Alvaro, procurando Maria, disse-lhe:

--Não abusarei das tuas bondades, anjo. Vivo do teu trabalho, agradeço-te de joelhos a esmola, e não posso continua'-la a receber.

Maria soltou um grito do coração e disse a Alvaro que a não matasse.

--De joelhos sou eu que te peço, meu amigo--exclamou ella--que me não abandones. Recompensa-me do muito que soffri, permittindo que eu sinta a santa felicidade de trabalhar para nós ambos. Oh! tu não sabes avaliar que ventura é esta! Se tivesses nascido pobre como eu, se tivesses ajudado com o teu talento a comprar o pão de teus paes e teus irmãos, não tinhas a crueldade de me roubar este prazer. Ó Alvaro, diz-me que é certo viveres para mim e para a esperança de melhores dias. Diz-me que entre a minha alma e a tua não ha uma linha de distancia que separe as nossas ultimas migalhas de pão.

XV

Passados dois mezes encontraram-se frei Antonio e o mercieiro que tinha emprestado dinheiro sobre os rendimentos da casa de Alvaro.

--Já sabe tudo?--perguntou o padre.

--Sei tudo--disse o lojista--O rapaz está outro. Vae ver sua mulher todos os dias, e ouvi dizer que chorava os seus peccados. Que faz elle agora se está arrependido? Porque não tira a pobre senhora do convento? Que se arremedeiem com pouco, e vivam juntos.

--É pouco de mais o que elles têem para viverem.