XXI
--No altar de Nossa Senhora... no altar de minha madrinha!... exclamou Maria, com a face coberta de lagrimas.--E, depois, meu tio--continuou ella--que lhe succedeu, quando tornou a si? Não lhe fizeram mais algum mal?
«Os flagellos não tinham ainda principiado, minha querida menina. Tu verás que a dôr de um golpe, não punge tanto como o escarneo de uma affronta moral. Quando recobrei o sentimento, pedi a Deus que me fechasse os olhos, e logo em seguida lhe pedi perdão da minha supplica. Compreendi nos meus padecimentos a expiação dos crimes da humanidade e a redempção dos meus peccados. Fui ahi trazido a pontapés, quando o sangue me escorrria da ferida. Fizeram-me, e aos meus companheiros, servir canecas de vinho áquella gente, que se movia em ondas pelos dormitorios, bramindo na embriaguez do seu odio. Quando a custo me pude desviar do tumulto, comprimi com o meu lenço a ferida, e esperei ensejo de poder fugir para morrer em paz debaixo de algum tecto piedoso. Não pude. Ao amanhecer fomos levados á casa do noviciado, e fechados á chave com vigias á porta, para não tentarmos o arrombamento.
«Olhavamo-nos com uma especie de idiotismo doloroso. Não sabiamos palavras de consolação, porque a amargura era extrema em todos. Em tamanha afflicção tinhamos só a linguagem da afflicção: oravamos. E nem um só reclinou a cabeça no chão para adormecer a agonia. Parece que o travo da morte, assim demorada, adoçára o coração de tantos infelizes. Nunca eu senti em mim tão santa, tão divina a influencia do temor de Deus. Esperava amanhecer na eternidade, á luz da justiça eterna, e da misericordia do Summo-Bem. A oração pelos meus inimigos era de um sabor indizivel, de um allivio intimo, que tanto mais se prende á creatura quanto ella se resigna nas tribulações! Bemdito seja nosso Senhor Jesus Christo, que por cada afflicto reparte uma faisca d'aquelle incendio de caridade em que expirára na cruz, pedindo a seu Pae o perdão para seus matadores!»
Frei Antonio não pudera, se quizesse, represar as lagrimas. A sua familia chorava, porque a voz convulsa, soturna, e sombria do padre, entrava no coração dos ouvintes, como as ultimas palavras do sacerdote no espirito do christão agonisante.
«O sol--proseguiu o padre--coava pelas frestas do noviciado uma restia pallida, que illuminava um crucifixo, esquecido pela populaça. Se cada um de nós fosse particularmente consultado em seu coração, no momento em que aquelle raio do sol nos allumiou, dissera a devoção fervente com que saudou a luz do céo, irradiando-se na effigie augusta do Creador do céo e da terra.
«Decorreu uma hora, sem que o silencio nos fosse quebrado por alguma voz. Julgámos abandonado o mosteiro como cidade viuva de seus filhos e espoliada das suas alfaias. Um de nós foi á porta escutar, e desmentiu as nossas conjecturas. Junto á porta resonavam profundamente as nossas guardas.
«Soaram nove horas, quando os primeiros echos reboaram pelos dormitorios. Como atalaias nocturnas, os brados reproduziram-se, reforçaram e subiram ao alarido compacto com que principiaram. Os vituperios vinham, como ondas sobrepostas, bater á porta do nosso carcere.
«A porta foi de improviso aberta. Mandaram-nos enfileirar. Cercaram-nos como a animaes extranhos, que movem a curiosidade. Emquanto eramos insultados por palavras de um outro menos soffrido e mais ultrajador, cuspiam-nos na face, e arrancavam-nos os cabellos. As mulheres, com as faces rubras do vinho, e com as linguas afiadas no sarcasmo villão e truanesco do seu officio, soltavam-nos aos ouvidos risadas ferozes, mixturadas com empuxões que nos davam ao capello, e aos cordões do habito. Esta situação penosa e indizivel durou meia hora.
«Mandaram-nos saír, escoltados, e fazer alto no pateo do mosteiro. Ahi lançaram ao primeiro uma corda ao pescoço, que vinha encadeando um por um até ao derradeiro monge. Depois mandaram-nos curvar o pescoço tanto quanto fosse preciso para assentar uma albarda. Penduraram-nos algumas campainhas ao pescoço, e mandaram-nos andar.