«Caminhámos uma legua, e fizeram-nos parar para reconhecermos um cadaver que se dizia pertencer ao brigadeiro realista Pessoa. Era effectivamente o seu. Dias antes estivera elle em nossa casa, já de retirada para a sua, visto que as forças sitiantes do Porto começavam a dispersar. Pedimos-lhe que se acautelasse porque os seus maus feitos tinham excitado o odio, e a vingança. Respondeu-nos, que tinha um salvo-conducto na sua honra, e na sua consciencia pura. A sua consciencia não devia estar tranquilla... Este mau homem fôra morto n'uma ribanceira pedregosa que nos ficava ao lado esquerdo da estrada.

«Caminhámos outra legua, e fomos mettidos n'uma cadeia, onde mal nos podiamos mexer. As prisões do pescoço affligiam-nos muito; e a sentença de morte fôra-nos lida quando entrámos, no caso de quebrarmos a «arreata» como elles nos disseram.

«Não vos posso contar com miudeza que tormentos provámos durante vinte dias que ahi vivemos. O frio, a fome, a insomnia, a falta de respiração, todas as privações que pode soffrer um homem, bemdito seja Deus, complicaram-se ahi... Que padecimentos! A piedade tremia de approximar-se do nosso infortunio. Homens bem trajados apiedavam-se; mas temiam o povo esfarrapado. Algum boccado de pão vinha através de difficuldades, e no ardor da sede as lagrimas serviam-nos de refrigerio aos labios queimados da febre.

No fim de vinte dias foi-nos dada a liberdade, sob a condição de não caminharmos para o sul. A infracção d'esta lei implicava pena de morte. Pensavam que viriamos procurar o exercito do sr. D. Miguel. A condição era escusada para mim. Ministro de Deus, jurado á caridade e ás humilhações, o meu braço, consagrado á elevação da hostia, não levantaria o ferro contra homens, ou barbaros, ou portuguezes. Eu maldigo em nome de Deus os meus irmãos que borrifaram de sangue a tunica legada pelos apostolos. A arma do sacerdote é o coração votado a abrandar a justiça do Altissimo, que faz dos homens o instrumento de sua vingança contra homens. Se me chamassem ao mais perigoso de um combate para acalmar, em nome de Deus e da caridade, as iras sanguinarias dos partidos, eu cruzaria as balas, e as baionetas travadas, corajoso, como um filho da patria, e um sacerdote de Christo. Viria, meu irmão, viria ajoelhar-me na frente do teu regimento, e pedir-te em nome da tua esposa e de teus filhos, que me deixasses fallar ao rei antes que mandasse voar a morte das espingardas dos teus soldados.[[1]]

Estás anciosa pela continuação da historia, minha menina? Olhas tanto para mim!... Tens entristecido com as desventuras do teu pobre tio?

--E tenho chorado... o tio não vê?

--Vejo, vejo, menina. E sabias que no mundo havia homens que fizessem assim padecer outros de quem não receberam alguma offensa?

--Pensei que não... Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos são todos tão bons, tão meus amigos, tão dados uns com os outros... e eu não conhecia mais ninguem. E como é possivel ser-se assim tão cruel, diga-me, meu tio?

--Digo... direi, minha filha... mais tarde... Queres agora o fim da minha triste peregrinação até á casa de teus paes?

--A tua casa, meu irmão--atalhou o coronel.