--Sim, sim, a sua casa, meu caro irmão--disse a esposa do coronel.
--Pois não somos nós todos a mesma familia?!--perguntou Maria com um sorriso de candida alegria e admiração.
--Graças vos sejam dadas, meu Deus!---exclamou o padre.
[1] Se Fr. Antonio ampliasse um pouco mais estas suas reflexões muito judiciosas, invectivaria os frades que, fóra das linhas de Lisboa, despejavam fogo para os de dentro com uma coragem e disciplina digna de granadeiros da guarda imperial. Alguns d'esses estavam ahi provando pela pratica as theorias vociferadas do pulpito, desde 1828 até 1832. Não foi mais do que lançar um correame sobre o habito, e substituir ao som da palavra incendiaria o som do arcabuz homicida. Se não receássemos desnaturalisar o romance pondo na bocca de frei Antonio censuras inverosimeis aos da sua politica, se é que elle tinha alguma além da do Evangelho, seria elle o que nos poupasse o trabalho d'esta nota para que se não diga que o auctor acoberta um pensamento hostil á liberdade, afeiando o quadro inevitavel, no conflicto d'ella com o despotismo em paroxismo. A leitores de má fé respondemos com a boa fé de imaginarmos, antes de começar o romance, que os não teriamos...
XXII
«Eramos vinte e dois homens abandonados á Providencia, sós com a nossa desgraça, sem futuro e sem esperanças de alcançar um bocadinho de pão mendigado. Eis a nossa situação. Era forçoso separarmo-nos. Companheiros de noviciado, quasi amigos de infancia, condiscipulos, presos ao céo e ao sacrificio por um laço commum, affeitos a harmonisar as nossas vozes em acção de graças, a dobrar os joelhos no mesmo chão, a comermos á mesma mesa, a soffrermos ao mesmo tempo os flagellos que attrairamos sobre nós, porque em todas as nossas frontes fôra escripto o caracter indelevel de nossa humildade... Eu não tento dizer-vos como foi amargo, como foi chorado aquelle adeus... para sempre! «Antes o martyrio, e que nos apartem!» exclamava um em quanto outro, debulhado em lagrimas nos braços de seus compaheiros, pedia um tumulo para todos nós! Foi um lance cheio d'aquella nobre dôr, que tanto honra o coração humano. O supplicio da separação d'aquella pequena sociedade cujos membros, não cançados, não egoistas, amavam-se como virgens na esphera innocente dos seus amores de collegio... podereis vós comprehende'-lo, meus amigos? Não! Deus quer que não! É sentir-se a morte, que parece deixar no coração um alento de vida para o tormento da saudade; mas aniquila todas as alegrias, todas as esperanças... que são a vida na terra.
«E separámo-nos!... que irresistivel imperio tem a desgraça, meus filhos! Recuavamos a cada passo para um novo adeus, para um novo gemido, convulso, apertado na garganta, como se a dôr nos fosse prohibida. Este doloroso trance demorou-se muito. Alguem, condoído de nós, avisou-nos dos rumores que corriam a nosso respeito na villa proxima. Dizia-se que tencionavamos, reunidos, caminhar para onde nos fosse possivel pegar em armas. A calumnia podia tudo então. O odio foi fertil em pretextos... Ora o amor da vida fez calar o grito da saudade. Demos o ultimo Adeus. O ultimo... foi o ultimo, meu Deus!... Diz-me o coração que sim.
«Entrei n'uma aldeia, onde fôra prégar um anno antes. Pedi gasalhado na casa de um lavrador. Foi-me negado. Não instei. Fui á porta de um jornaleiro: achei-a franca. Era assim o seu coração, porque o pobre, sem vergonha nem pesar de o ser, tem uma alma cheia de bondade. Pedi-lhe umas palhas: deu-me a sua cama, a sua manta e o seu lençol de estopa. Não lhe pedi mais nada: mas o pobre deu-me o seu caldo, o seu pão amassado em suor, e o seu apresigo, producto das economias da semana para solemnisar o dia do descanço. E adormeci abençoando o pão do pobre, em quanto elle, sentado ao lar, rezava o seu rosario, ou espertava a fogueira para me ser menos sensivel a pouca roupa da cama; O pobre será sempre o eleito, o ente privilegiado para as virtudes praticas do evangelho. Jesus Christo adoçou-lhe o travo da penuria, dando-lhe ao espirito o antegosto das riquezas que enthesoura no céo.
«Adormeci.
«E alta noite, fui acordado em sobresalto pelo meu hospede. Ouvi tiros. «Que é?» perguntei eu. Não sei ao certo, senhor. Ha pedaço que ouço estes tiros, e estou com medo... «Que venham ter comnosco?» perguntei eu. «Sim, senhor; mas eu vou ver o que é» respondeu o bom homem.