«Eu quiz conte'-lo; mas elle convenceu-me da segurança da sua empresa. Quando voltou, disse-me que tinham sido mortos dois frades do meu convento em casa de um tal lavrador. Imaginae o meu terror. Quiz saltar fóra da cama, trocar o meu habito por alguns farrapos e fugir; mas o jornaleiro estorvou-me com boas razões. «A casa de um pobre, disse elle, é mais segura.» Não a perseguem as grandes desgraças, porque tambem a não procuram as grandes felicidades--disse eu na minha consciencia. Orei por alma dos meus infelizes amigos, se o seu martyrio não era expiação bastante de suas faltas.
«Amanheceu, e tive mais informações. Dizia-se que dois monges desfigurados vieram bater á porta do lavrador que me tinha recusado a entrada. A porta fôra-lhes aberta, porque ninguem de casa os conheceu ao principio. Recolhidos, foram logo conhecidos; mas era tal o seu contentamento, e a sua linguagem que o lavrador adormeceu descançado com os seus dois hospedes, que, por mais de uma vez, declararam com arrogancia que já não eram frades. O lavrador não os comprehendeu. Mas, alta noite, uma guerrilha forçara a porta, entrára e matára os dois desgraçados que tiveram a louca ousadia de resistir com bacamartes, depois de malogradas as suas razões. Surprehendeu-me esta noticia! parecia-me um conto disparatado!
«O jornaleiro arranjou-me um fato semelhante ao seu. Desfigurei-me. Providencia de Deus! No instante em que me vestia, olhei para a ferida que recebera na perna, e encontrei-a quasi cicatrizada! É quando o atheu o reconheceria o anjo do Senhor, pensando as chagas da alma e do corpo áquelles que o confessam!
«Saí. O quinteiro do lavrador estava a trasbordar de povo. Conheci que os cadaveres estavam no centro.--Atravessei a multidão, até junto do carro onde os mortos estavam... recuei horrorisado! Senti precisão de gritar: «justiça de Deus!» mas cedi a um sentimento egualmente grande. Do meu peito saíu outro grito: «misericordia, meu Deus!»
«Informei-me. Estes dois infelizes caminhavam para suas casas, com o cofre das economias do convento. Eram os assassinos do venerando prelado.
«Aquelle sangue escrevera na face de taes homens uma lugubre sentença de punição. Quem seriam os instrumentos de vingança? Ignora-se.
«Meus amigos, erguei a Deus as mãos, e os corações. Oremos pelas almas dos meus desgraçados companheiros!»
E oraram de joelhos. Maria tremia como de susto.
XXIII
Não me demorei tempo algum n'esta aldeia--disse frei Antonio--Pedi ao meu pobre bemfeitor que me guardasse o meu habito, e prometti pagar-lhe o seu, que elle me deu com lagrimas de contentamento.