LIVRO II
I
Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a solução de um problema que, havia muitos seculos a humanidade procurava resolver: a miseria. O processo escolhido em cada seculo para o mesmo resultado, tinha sido identico: a guerra ao rico, em nome do proletario. A unica situação real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das suas utopias, é conciliar pelo soccorro-mutuo duas idéas que parece repellirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situação que as escolas da philosophia materialista chamavam absurdo, realisa-se pelo dogma da Associação que é a traducção da fraternidade, que o christianismo afervora: é a felicidade do homem do trabalho sem attentar contra o rico. Tão sublime idéa, tão grandes factos teem-se operado n'um grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz evangelica por todos os homens.
Enlaçar n'um abraço voluntario a pobreza e o contentamento, esposar estes dois predicados que luctam rancorosamente no coração da humanidade, amiga'-los, move'-los a dulcificarem-se, identifica'-los para que o divorcio os não desligue n'um repelão desesperado: tal prodigio, um consorcio assim só na pratica do soccorro-mutuo pela associação póde operar-se, porque é a genuina traducção do Evangelho que Jesus nos deixou recommendado.
O incredulo do christianismo e da associação ao passar na sua carruagem, assaltado de cuidados, pela porta do operario, sente-se affrontado pelas risadas alegres que lá vão dentro d'aquelle sotão raso com o chão. Tal homem não possue o capital que mais felicidade produz. Não sabe que a religião e o soccorro mutuo são o incentivo do trabalho. Compreende, apenas, que o trabalho é o capital unico do proletario. Julga elle que o artifice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo ás palhas do repouso para mentir no somno aos flagellos do dia futuro. Não sabe que o amor em todo o tempo, em todas as edades, e em toda a hora do dia, é quasi um exclusivo do pobre. Não sabe que o artista é pae, é esposo, é christão, e possue um thesouro de affectos que o deixam á beira do tumulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um emprestimo contraído para adoçar as amarguras da terra. Não sabe que o soccorro-mutuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem laborioso.
A familia do coronel... era como a familia do artista. Alli, a pobreza tinha sorrisos, a resignação um triumpho, e os desgraçados um exemplo. O coronel ensinava primeiras lettras. Fr. Antonio dos Anjos ensinava latim. A esposa do coronel com quatro filhos entrançavam cordões para dragonas e pennachos. Maria, aos oito annos, copiava musica e fazia flores.
--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antonio, extendendo em veneranda postura o braço sobre a mesa, em redor da qual uma familia alegremente saboreava um parco jantar.
Estariam elles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se aquelles espiritos ás angustiadas urgencias, ao passadio mesquinho de operarios? A soberba da educação não se rebella contra a lei oppressiva da necessidade?
Não. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demonio do orgulho não póde tramar as conspirações do ocio contra a familia laboriosa. Frei Antonio era o anjo dos alentos, da resignação, e das esperanças. Venturas que elle via no futuro, ninguem as via; mas acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a unção da prophecia. E não era calculando eventualidades politicas, nem thronos arruinados, nem batalhas feridas no seio da patria, que frei Antonio aventurava promessas. D'onde a inspiração lhe vinha não sabia elle dize'-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos pés da cruz, que não trouxesse aos seus uma palavra de esperança, um vaticinio mysterioso.
--É o céo que o tio nos promette...--dizia Maria, sorrindo para sua mãe, e recortando a folha de um lyrio.