Um ou outro homem encosta a face á mão, abraça os horisontes com uma vista scismadora, afina a harpa da sua alma pela toada sonorosa dos pinhaes; compõe das notas lugubres da tempestade a harmonia tetrica, e desfigura-se, e poetisa, e parece não querer nada de commum com a fraca natureza humana. É o sentimental.

O sentimentalismo, sem a religião, é uma mentira.

O que ahi vae de phantastico e espiritualista nos affectos, é uma exigencia da epoca, é um encargo que a mocidade se impoz, é a precisão de variar. Diga-se tudo: é a moda.

Não porque a vida seja feliz, e a natureza do homem precise inventar amarguras, para que a felicidade o não enjoe;

Não porque o espirito, extenuado em sensualidades procure, no ideal, respirar o elemento de vida, que lhe é proprio;

É porque as felicidades, saboreadas n'estes tempos não deixam no coração motivo para um hymno. O homem, que não póde apagar na mente a faisca do genio, que lhe desceu ao berço, ou mata a inspiração na orgia, ou abysma-se com ella, por feretros e ossadas até materialisa'-la nas fórmas repugnantes de uma dor monstruosa.

E, se assim não fizer, o seu alaúde não tem sons, e o genio fallece-lhe de impotencia. Mas o poeta quer este titulo; cantor quer a grinalda das flores em troca da corôa de espinhos; é preciso cantar.

Se lhe pedisseis, em vez de horrores, uma poesia banhada de luz celeste, em que os mil reflexos de cima fossem as virtudes possiveis no mundo...

Se lhe pedisseis, em vez da pagina sempre negra da sua vida, as alvissimas alegrias de uma virgem, que, a fugir de um mundo, que se lhe pinta ingrato á sua alma candida, se refugia aos pés de Maria, Rainha das Virgens, a pedir-lhe o céo, como repouso inviolavel da innocencia...

Se lhe pedisseis a doçura das lagrimas da pobre, que aconchega seus filhos n'um envoltorio de andrajos, e ajoelha depois, entregando-os á Providencia, para que, ao amanhecer, não sejam muito repetidos os seus gritos de fome...