Pedi.

O poeta ha-de dizer-vos que a luz do céo é esse oceano de luz, que banha a terra, quando as arvores florescem e as arvores saudam ao alvorecer um sol esplendido.

Ha-de falar-vos da virgem, arfando esperanças no seio immaculado, mas esperanças todas d'aqui, todas embalsamadas pelo incensorio das paixões terrenas.

O pobre, esse que vale bem a pena de uma poesia, de uma pagina de romance, é sempre a victima da má organisação social, e de uma mentirosa economia politica. Vê'-lo-heis invectivar o rico, com toda a iracundia de uma inoffensiva estrofe; mas o pobre que continua nas palhas da miseria, esse não recebe uma consolação em nome do futuro, do céo, e das promessas de Jesus Christo. É sempre o pobre recrutado para as fileiras que guerreiam o rico.

Eu pensei, uma vez, na vastidão de assumptos sobre que o sceptro do talento extende o seu imperio. Chamando á reminiscencia o acervo de leituras recreativas, que fiz, durante alguns annos, entrevi nos meus tempos nebulosos o muito tempo consumido, os muitos volumes folheados, e não poderei classificar-vos, em synopse de idéas, uma só que me prestasse ao espirito, ou ao coração, ou á cabeça.

Aprendi o desengano no romance, antes que a sociedade m'o desse.

Libei na poesia do seculo a mentira, antes que o coração contaminado m'a inspirasse.

Aborreci-me de mim e das minhas leituras, como se o livro e a poesia fossem um sarcasmo para quem nas más horas, lhe mendiga espairecimentos para o espirito.

Vislumbravam-me no escuro das minhas idéas religiosas uns clarôes pallidos do que o romance e a poesia deveriam ser para adoçarem muitos infortunios. Mas, que me pedissem a idéa formulada no livro! Faltava-me a convicção das virtudes do balsamo para saber applica'-lo á ferida.

Não tinha eu provado ainda as doçuras da religião para sentar-me com a taça do Evangelho, á borda do caminho, e dizer ao peregrino cançado: