Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve exclamação que revelasse o alvoroço d'aquella surpresa.

--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face pousada no seu hombro--mas tão melancolico era o canto e a musica!... Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!...

--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo do piano.

--Porque não? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no coração? Segredos para o teu mestre, Maria!

--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a linda menina com a voz entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..

--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.

--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria, córando, e procurando fugir de estar presente á leitura.

Fr. Antonio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:

PRESENTIMENTO
«Minha paz no infortunio,
Minha alegria na dôr,
Quem m'a déra, qual a tive,
Qual m'a déstes, vós, Senhor!
«Desbotou-se-me nos labios
Meu sorriso tão singelo...
E eu com elle premiava
Tanto amor, tanto desvelo!...
«Tanto amor, que eu vos pedia,
Do que os anjos tem nos céos,
Para amar meus paes, meu tio,
Como vos amo, meu Deus!
«Não scismei outras venturas,
Outros gosos não pedi:
Fui tão rica na pobreza...
Na pobreza empobreci.
«Senti lagrimas no rosto...
Sei que tenho aqui no seio
Escondida uma tristeza
Que de vós, meu Deus, não veio!
«Deu-m'a o mundo?... sim... daria...
Mas que mal ao mundo fiz!?
Serei eu de alguem inveja?
Pois que eu não seja feliz!
«Volva o tempo da penuria,
Quando eu fiz a pobre flor,
Que me dava um pão regado
Com meu pranto e meu suor.
«Dae-me as noites não dormidas
De trabalho e de alegria;
Meu orar na madrugada,
Quando, tão feliz, me erguia.
«Oh meu Deus! se a humilde serva,
Não votaste ao soffrimento,
Abafae lhe a voz, que a punge,
D'um cruel presentimento!»

Fr. Antonio lera commovido essas singelas quadras, cujo toque de sentimento não póde enternecer-nos, talvez. Nos labios d'elle, tremulos e nervosos, a poesia soava como um canto funebre. Que tristeza no declamar! Poderia ter-se como uma elegia á innocencia de Maria? Por Deus que não. O hymno, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era como a luz do relampago que aclara, de repente, um amplo espaço: era a luz electrica das intelligencias privilegiadas; o abalo do presentimento que quer saír do circulo do mysterio: a adivinhação do futuro.