--Que é o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antonio.
--Já me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio.
--Não te compreendo... abre-me o teu coração sem reserva... Serias culpada se fingisses a teu tio as razões do teu soffrimento...
--Não posso mentir-lhe, meu tio... Não sei ainda o que é fingimento... nunca na minha vida menti a alguem. Eu não sei porque estou triste. O meu coração não m'o diz, e a minha tristeza nasce-me do coração, esconde-se lá como um segredo afflictivo... E eu que mais hei de dizer-lhe, meu caro amigo? Que peço muito a Deus que me não quebre este calix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o exgote.
Maria enxugava as lagrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor febril das faces. Fr. Antonio, contemplativo, olhava para a sobrinha silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a ultima palavra d'aquella revelação confusa.
O coronel entrou na sala, e correu a abraçar seu irmão, e dar a mão a sua filha, que lh'a não beijara ainda. Maria, surpreendida, quiz, á custa de um sorriso violento, converter em alegria aquella saudação; mas a dôr de filha é necessario que seja peccaminosa para esconder-se aos olhos de pae. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de Maria como lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os seus temores; e a severa experiencia do mundo alguma vez lhes inspirou bem tristes receios. Aos quatorze annos ha melancolias no coração de uma virgem, que apenas tem de mysterioso a tendencia irresistivel, que Deus lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da innocencia, recebe uma adoração, senão semelhante, ao menos perfumada com o mesmo incenso do amor divino. E a mãe de Maria recordava-se da sua infancia, e perguntava a seu marido se as lagrimas da filha seriam as precursoras de alguma paixão infeliz. Era indiscreta a pergunta. Não se dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria não tinha um instante mysterioso a seus paes. Trabalho e oração--não tinha outro desvelo desde o amanhecer até á ultima benção pedida a seus paes.
Maria, valendo-se da conversação do pae com o tio, retirara-se da sala. O coronel assim o queria, para consultar o irmão, homem de Deus, que via o coração dos outros com os olhos puros da probidade. Mas não são esses olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no coração apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as luctas intimas do espirito, escravisado aos caprichos das paixões, é o homem das paixões, encanecido na amarga experiencia d'ellas. Bem pudera Maria dos Prazeres agonizar nas tribulações de um amor criminoso, e sua morte ser um mysterio para o padre que não sentia acordar em sua alma o echo dos gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as necessidades, responde a todas as aspirações do coração de um justo. Não é o justo de uma longa vida irreprehensivel quem póde arrancar ao penitente, que se lhe ajoelha, uma revelação pungente, que o pejo emmudece nos labios. É necessario profunda'-la com a sonda das proprias agonias. É necessario adivinha'-la no espirito do penitente, a favor de um symptoma que revela outro, de uma palavra solta que vae prender-se á explicação de um longo silencio. E esta dolorosa syndicancia não póde exerce'-la a simples theoria das paixões.
VIII
A arte, que ensina a levantar o véo das paixões silenciosas, era desnecessaria para Maria. A virgem não tinha segredos para alguem. Podesse ella entender a transfiguração da sua alma, a magua confusa dos seus novos pensamentos, que, bem feliz, pediria conselhos e consolações á sua familia.
--Mas aquelle silencio!...--dizia o coronel, replicando ás santas convicções do padre, a respeito da innocencia de sua sobrinha.